
Episódio
A ansiedade se deve também à falsa moral, ao temor de Narciso vir a ser descoberto. Que descubram, ou que ele mesmo descubra, os crimes que cometeu, tal como mostra o mito de Édipo. Uma senhora de sessenta e dois anos, Maria G. teria sido acusada por um vigia de supermercado de roubar um potinho de creme de leite e teria sido revistada diante dos outros clientes. Maria voltou para casa. Ela não falou de sua desventura com ninguém. No dia 10 de abril, ela foi ver o túmulo de seus pais. Na volta, passou perto do canal no qual acabam de repescar e identificar seu corpo. Ela havia deixado um bilhete para seu filho: “Roland, eu não cometi o roubo do potinho de creme do qual me acusam os pilantras do supermercado. Juro sobre a cabeça de meus netos. Diante da morte, não minto. Tua mãe”. Maria foi descoberta e se matou. Édipo vai descobrir que o criminoso era ele mesmo e se cegou. A falsa moral obriga a pessoa a ocultar até de si mesma os crimes que pratica. Se foi o psiquismo que necessitou ocultar os crimes que praticou, como ele vai descobrir quais são esses crimes? Se foi ele mesmo que criou a amnésia que o impede de se lembrar do que ele fez, como ele vai desvendar essa amnésia? Édipo mostra isso através de relatos de terceiros. E isso se tornou o método psicanalítico. Porém, com um problema difícil de contornar, que Freud nomeia “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”. É que no consultório o analista não tem mais ninguém a não ser o paciente. E o paciente é insincero. O analista não tem, como teve Édipo, a cidade inteira, para sair perguntando. Édipo faz uma análise em público, não em privado. Ele tem pessoas da realidade que vão confirmar que Laio era o pai dele, e que ele se casou com a rainha viúva depois de decifrar o Enigma da Esfinge quando retornou a Tebas. E essa rainha viúva, era a mãe dele. E essa história do crime edípico que é aproveitada por Freud, poderia ser aproveitada de um modo diferente, dizendo que Édipo faz a sua análise baseada em fatos reais, e não em fatos imaginários que o paciente relata a seu bel-prazer em consultório. Ele não é fiel ao seu relato porque ali não existe ninguém da realidade que irá confirmar ou não o que ele quer contar. O Ego não irá dizer ao analista o que outras pessoas diriam se estivessem no consultório. Nós leitores de Sófocles temos função de analista, de escutar, somo o público, aquele que está lendo o que o autor escreveu. E o autor raz o percurso de Édipo desde o nascimento, a passagem por Corinto, o retorno a Tebas, a morte do pai, e o casamento com a mãe, que seria o crime: casar com a mãe é crime. Toda essa investigação somente foi possível porque existiam as pessoas na cidade que foram uma a uma confirmando esse relato. Édipo abriu uma investigação policial. O leitor fica escutando o relato como se fosse um analista. Nesse caso então, o Édipo não representa uma dificuldade no caminho dele mesmo: ele abre o jogo, mesmo que seja ao preço da cegueira. Em Édipo então, a Vaidade não seria um obstáculo ao conhecimento de si mesmo. Em Édipo, não há a dificuldade no caminho do Eu. Ele vai até o fim na investigação. Essa é a diferença. Que Freud não comentou.