Kafka – Narciso na Porta da Lei. Para infringir a lei externa eu preciso primeiro me autorizar a infringir uma lei interna. Porque a lei externa está internalizada em mim. O que dizem lá fora ‘é proibido matar’ eu sei pelo lado de dentro que é proibido matar, roubar, adultério... Por isso que o homem fica na Porta da Lei. Publico ou não publico este texto? Falo ou não falo o que eu quero falar? Mantenho reprimido ou não mantenho reprimido e falo? Isso que eu mantenho reprimido não é somente porque eu quero me reprimir, é porque há uma proibição social de dizer isso que eu tenho para dizer. Como é que eu vou dizer o que não pode ser dito? Como eu direi o proibido. É isso que aparece no texto na Porta da Lei de Kafka. O juiz externo me julga por dentro dizendo ‘você não pode passar por essa porta porque é uma infração, um perigo, fazer o que você pretende’. Algum juiz externo precisa dizer ‘pode fazer o que você quer fazer’. No entanto, é a própria pessoa esse juiz.