
Episódio
De uma tragédia, ao invés de ficar fazendo pirraça, cair doente, no sofrimento, ao contrário de sucumbir, porque uma tragédia leva a pessoa à destruição, ao contrário disso, fiz um pouco parecido com o Bauman, quando perdeu tudo e viu o mundo líquido. Toda a produção de Bauman é em cima da ideia de identidade destruída. Maria G. foi pega roubando um potinho de creme, e no desconforto dela com sua própria imagem, que foi o que Freud disse, no encontro com o desagradável, com o desconforto, é que nasce o Eu. No encontro com o Real, quando sai da caixa dos pais, da proteção materna e paterna. Quando o menino adotivo descobriu que os pais estavam enganando ele, veio perguntar “então eu tenho dois pais? Eu tenho duas mães?” e aí virou um Eu ali, começou a surgir algumas frases dele interpretando. Veio interpretar o pai e a mãe que viviam enganando o menino, com um livrinho de adoção. É como se o garoto com 5 anos dissesse -Olha, eu não caio nessa não, viu, vocês estão me enganando aí, toma vergonha, dois adultos, dois pais, meus pais, ainda por cima, mentindo para mim, me dizendo através desse livrinho sou filho do coração,.. cadê meu outro pai, se sou filho de outro pais, está aonde ele? Um garoto de 5 anos! Contra o desagradável, surgiu a desgraça na frente dele, o mundo caiu, chorou, passou a ter pesadelos, problemas com a interpretação da realidade. Está aí uma situação em que uma pessoa se depara com uma tragédia, situação trágica, saber que o pai não é pai, nem a mãe, quando a pessoa se sente traída, aquela em quem ela mais confiou, é a hora então de ver quem ela é no mundo. Quem sou eu no mundo? Do resultado de um acontecimento trágico me veio toda essa pesquisa em função do Eu. Está saindo um excelente livro aí, que eu mesmo vou dizer que é excelente, porque é meu, mas não é só por isso não, é porque não existe outro igual. Hoje estamos vivendo uma guerra de Egos, um querendo furar o olho do outro, um irmão, um amigo, um herdeiro, pessoa que você mais confiou... até tu, Brutus? Isso não é uma questão de hoje não, Júlio César foi assassinado pelo filho adotivo dele. Quer dizer, facada pelas costas faz parte da regra do jogo. Júlio Cesar morreu, mas, e quando não morre? Vai ficar sangrando a vida inteira, ou vai devolver algum produto melhor? O Jung deu uma facada nas costas do Freud numa guerra de Egos. De uma tragédia, prosseguiu adiante o Freud anunciando o Narcisismo na psicanálise. Freud se vingou de Jung, chegou um livro, de Putnam. Este áudio é para dizer que de uma tragédia eu fiz um grande livro. Não só um, vários filhotinhos Tipo Alan Badiou, O Ser e o Acontecimento, e depois mais de 20 livros. Um livro de quase 400 páginas que vem reinterpretando a obra de Freud a partir do Inconsciente Narcísico, só há uma causa para aquilo que falha, é quando falha que surge uma causa para o Eu, quando o Eu é esfaqueado pelas costas há uma falha na defesa, e em cima dessa falha deve nascer um novo Eu diferente. Que é o Narcisismo de Freud refortalecido a partir da traição, e a vingança então quem me criou um problema, essa vingança, na verdade, é um agradecimento! Muito obrigado por ter me criado um problema, porque um problema é uma solução. -Marido, estou com um problema! -Você não tem um problema, você tem uma solução! Você vem me dizendo todo dia isso, e já repeti várias vezes, que é um problema, não é um problema, é uma solução! Porque agora você vai resolver o problema, você vai se ocupar, é terapêutico se ocupar para resolver um problema, o problema e uma solução. É melhor ter um problema para resolver do que não ter nenhum. E quando o problema é grande, melhor ainda, porque aí tem que fazer igual ao Bauman: recompor-se escrevendo e publicando suas obras.