
Episódio
Em 17 de fevereiro de 1908, Freud escreveu a Jung: “Meu ex-amigo Fliess desenvolveu uma paranóia horrível depois de se livrar da afeição por mim, que era sem dúvida considerável” Em 20 de fevereiro de 1908, Jung respondeu a Freud: “As psicoses (as incuráveis) deveriam provavelmente ser consideradas como encapsulações defensivas que falharam, ou melhor, que foram levadas a extremos. O caso de Fliess atesta isso.” A afeição de Fliess por Freud era, na verdade, afeição, homoafetividade, de Fliess por si mesmo. Não foi a ruptura com Freud que levou Fliess a desenvolver uma paranoia horrível, mas a ruptura em Fliess no amor por si mesmo, a ruptura de Fliess com Freud significou uma ruptura de Fliess com o próprio Fliess. Não era compreendido o Narcisismo em 1908, vindo a ser incluído na psicanálise em 1914. O Narcisismo é conquistado pela criança por volta dos cinco anos de idade, quando ela se torna homoafetiva consigo mesma, amando a si mesma, o que exige a responsabilidade de cuidar-se, viver entre amiguinhos estranhos. Houve em Freud uma ruptura com si mesmo, escreveu, "o Narcisismo foi um parto difícil", foi difícil parir o Narcisismo quando compreendeu que a psicanálise era o seu Narcisismo, das interpretações que ele havia criado, como médico, no acolhimento do doente. Freud quase desenvolveu uma paranoia horrível, ficou doente, recuou, e modificou a psicanálise. Tolstoi, Nietzsche, Schreber... desenvolveram paranoia horrível na ruptura consigo mesmos, a posição que haviam alcançado estava no imaginário, no poder da imagem. Na ruptura com a própria imagem, veio a queda para o real. Como aconteceu com Maria G., que se suicidou por ter sido descoberta roubando potinho de creme. Jung não estava incorreto: “As psicoses (as incuráveis) deveriam provavelmente ser consideradas como encapsulações defensivas que falharam, ou melhor, que foram levadas a extremos” Uma ruptura interna na imagem, pode desencadear a loucura. O Narcisismo ainda não foi estudado como deveria ter sido, e pode ser estudado no livro “A Cruel Filosofia do Narcisismo” – pela imagem enganosa que a pessoa faz de si mesma.