
FacebookLinkedinWhatsAppThreads A queda de Getúlio Vargas, 80 anos atrás, inaugurou o padrão brasileiro de ruptura: pactos de elites decidindo o destino do país enquanto o povo dançava ao som da modernidade que chegava do rádio. TRANSCRIÇÃO DO PODCAST DJALBA: 29 de outubro de 1945 – oitenta anos atrás. A ditadura do Estado Novo chega ao fim. E o Brasil assiste à queda de Getúlio Vargas, Mas não como nas deposições épicas dos filmes, nas barricadas, ou nos levantes de massas espontâneos. Aqui, o fim sempre acontece em silêncio. Nos subterrâneos ou nos corredores fechados do poder. Hoje vamos entender por que essa queda não foi apenas o fim de Vargas, mas o início de um padrão que regeria a política brasileira ao longo do século 20. SAMARA: Vargas governava o Brasil havia 15 anos. Era o Estado Novo, um regime autoritário, centralizador, que suspendeu eleições, fechou o Congresso, censurou a imprensa e perseguiu adversários. Mas o mundo mudou durante a Segunda Guerra Mundial. DJALBA: O Brasil estava mandando soldados para lutar contra o nazifascismo na Europa ao lado das grandes democracias. E internamente, aqui dentro, vivíamos sob uma ditadura. Essa contradição explodiu. SAMARA: O cenário não era marcado apenas pela oposição de intelectuais, estudantes, políticos liberais ou militares insatisfeitos. Havia nesse cenário também o outro lado, o reverso da moeda: o Queremismo! Era um movimento híbrido – que vinha tanto das bases populares, sindicatos urbanos, quanto de setores mobilizados por dentro do próprio Estado Novo – e cujo slogan era direto: “Queremos Getúlio!” Era um movimento pela continuidade da ditadura, porque Getúlio era visto por amplas camadas como o “pai dos pobres”. DJALBA: E tem um ponto que explica por que Getúlio tinha essa força popular real. Não era só propaganda. Não era apenas mito construído. Ele se tornou, para milhões de brasileiros, o “pai dos pobres” porque foi no governo dele que os direitos trabalhistas foram consolidados. Em 1º de maio de 1943, Vargas assina a CLT — a Consolidação das Leis do Trabalho — reunindo direitos como jornada de 8 horas, férias, descanso remunerado, proteção do trabalho do menor e da mulher. Muitos desses direitos já vinham sendo reivindicados nas décadas anteriores… mas foi Getúlio quem transformou tudo isso em lei. Para o trabalhador urbano brasileiro, aquilo teve impacto imediato e concreto. E essa memória social não se desfaz fácil. Ou seja: Vargas não caiu sozinho. • Ele tinha rua. • Ele tinha base. • Ele tinha massas. E isso torna o episódio ainda mais singular. SAMARA: Mas, mesmo com apoio popular, o desgaste era insustentável. A cúpula militar, setores civis da elite política e econômica decidiram que o ciclo Vargas tinha terminado. E então chega a cena mais tensa desse capítulo: o aviso final. DJALBA: O general Cordeiro de Farias é encarregado de ir pessoalmente ao Palácio do Catete. Ele leva junto o ministro da Justiça, Agamenon Magalhães. Chegam ao Catete. Entram. Vargas está acompanhado do seu irmão, o coronel Benjamin Vargas. E então, Cordeiro de Farias dá o recado final, como relataria mais tarde no livro “História Vivida” (*). “Presidente, o senhor precisa enviar uma pessoa ao Ministério da Guerra para dizer para onde deseja ir. Não há necessidade de que saia amanhã, nem depois de amanhã. Mas a guarda do Palácio já não é a mesma. E as pessoas que estão aqui, ao saírem, não poderão mais voltar.” Um Getúlio “frio” pergunta: “Então, é uma deposição sem sangue?” E Cordeiro responde: “Sem sangue. A não ser que seus partidários resolvam defendê-lo. Nesse caso, vamos lutar contra eles. Mas a sua pessoa é intangível.” DJALBA: Sem alternativa, Getúlio aceita. O presidente do Supremo Tribunal Federal assume interinamente. E o general Eurico Gaspar Dutra seria eleito depois, em 1946. Mas a história não fecha aqui. Porque Getúlio volta. SAMARA: Ele retorna pelo voto direto em 1951. E enfrenta um ambiente político ainda mais inflamado, dividido, ideológico, hostil e cheio de pressões – internas, externas, empresariais, militares, midiáticas. O segundo governo de Vargas caminha sobre carvão em brasa. DJALBA: Até que em 24 de agosto de 1954 — no auge da crise — Vargas se mata no Catete. O suicídio vira ato político. E muitos historiadores defendem que esse gesto retardou o golpe militar em cerca de 10 anos. SAMARA: E há uma evidência histórica que reforça essa tese: a Novembrada de 1955. Foi quando o marechal Henrique Teixeira Lott agiu para abortar uma nova ruptura institucional com objetivo de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito democraticamente em 3 de outubro de 1955. Isso foi chamado de “contragolpe preventivo”! Ou seja: O golpe que tentaram fazer em 1954… só se materializaria em 1964. DJALBA: Por que isso importa hoje? Porque a queda de Vargas não é apenas uma página distante do passado. Ela inaugura um modelo de como o poder muda no Brasil. Aqui, não é a insurreição popular que derruba governos. Não é o enfrentamento ideológico cara a cara na rua. Não é o povo que decide o fim de um regime. É o pacto de elites. • 1945 foi pacto de elites. • 1954 foi tentativa de pacto de elites interrompida pelo suicídio. • 1955 foi disputa interna dentro das elites. • 1964, pacto de elites consolidado. E se a gente olha com cuidado… esse padrão não sumiu. Ele só mudou de linguagem. Mudou de “estética”. Mudou de justificativa moral. O Brasil muda de ciclo quando grupos restritos – militares, políticos, empresariais, juristas estratégicos – decidem que o ciclo acabou. E o povo… só é chamado depois para legitimar o que já foi resolvido. No Brasil, a história não costuma mudar no palanque. Ela muda antes: • Na “sombra”. • No subterrâneo. • Onde poucos decidem… e todos pagam a conta. DJALBA: Eu sou Djalba Lima, editor de Relatos – A Estação da História. SAMARA: Eu sou Samara. Você ouviu Relatos – A Estação da História. Se tiver gostado, compartilhe este episódio com amigos. Se quiser comentar, deixe sua opinião em relatos.blog.br SAMARA: Antes de encerrar definitivamente, vale uma última “palavra” para o ouvinte guardar na memória: • 1945 não é só política. • 1945 também é música. O Brasil daquela época era o Brasil do rádio como força dominante. E um ritmo estrangeiro, vindo dos Estados Unidos, invade o país pela porta sonora da Segunda Guerra: o boogie woogie. A canção Boogie Woogie na Favela, sucesso de 1945, mistura essa batida americana com o samba carioca. Naquele mesmo ano em que cai o Estado Novo… o país estava descobrindo um novo ritmo. E dançando — mesmo sem perceber — dentro de um mundo que mudava lá fora. Por isso escolhemos essa música como tema. Porque ela é o retrato sensível de uma transição silenciosa: o Brasil mudava de tempo — e também mudava de som. [Segue trecho da música Boogie woogie na favela.] DJALBA: O autor da música Boogie woogie na favela é Denis Brean. A gravação original mais conhecida é a de Cyro Monteiro, lançada em 1945. {Segue trecho da música] (*) A História Vivida (I) – Lourenço Dantas Mota (coordenador) – Ed. O Estado de S. Paulo O post Boogie woogie na favela, silêncio no Catete: o Brasil que dançava enquanto o regime caía apareceu primeiro em relatos.blog.br.