
EpisĂłdio
âEstamos nos perdendo entre monstros da nossa prĂłpria criação.âE a violĂȘncia contra a mulher Ă© um desses monstros, gestado em uma sociedade que, por muito tempo, ensinou que mulheres nĂŁo sĂŁo livres para escolher ficar, ir embora ou interromper um vĂnculo quando ele deixa de fazer sentido. Ensinou, ainda, que a violĂȘncia, em qualquer de suas formas, pode ser confundida com gesto de amor.Os dados que hoje circulam sobre a violĂȘncia contra as mulheres nĂŁo falam de um âmundo piorâ, mas revelam um sintoma mensurĂĄvel de um problema antigo. O que mudou nĂŁo foi a existĂȘncia da violĂȘncia, mas a possibilidade de nomeĂĄ-la, medi-la e, por isso mesmo, nĂŁo silenciĂĄ-la. Tudo aquilo que pode ser medido precisa, sobretudo, ser discutido.Ainda somos uma geração herdeira da violĂȘncia da geração anterior, que ensinou, pela ausĂȘncia de letramento emocional, que a violĂȘncia Ă© a linguagem de quem nĂŁo tem palavras nem argumentos. Ensinou que posse pode ser confundida com honra, que controle pode se travestir de respeito e que autoridade pode nascer do medo, e nĂŁo do vĂnculo.E Ă© importante dizer: isso nĂŁo Ă© uma guerra de âpiupiu contra frajolaâ, nem de herĂłis contra vilĂ”es. Em tempos como os nossos, nĂŁo existem vencedores claros, mocinhos absolutos ou bandidos isolados. HĂĄ pessoas adoecidas, feridas em suas histĂłrias emocionais. Mas hĂĄ tambĂ©m quem, ferido, consiga ferir com mais intensidade, com açÔes que deixam marcas profundas e, muitas vezes, sem possibilidade de retorno.O assunto Ă© mais profundo do que parece. NĂŁo se muda uma cultura inteira num passe de mĂĄgica, como nos filmes da sessĂŁo da tarde, onde todos os vilĂ”es se arrependem e transformam seu comportamento de forma instantĂąnea. Mas Ă© possĂvel aprender a reconhecer sinais, nomear perigos e interromper ciclos antes que a violĂȘncia se torne irreversĂvel.