A economia brasileira vive um daqueles momentos em que política, consumo popular e estratégia eleitoral parecem caminhar lado a lado. Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória que zera o imposto federal sobre compras internacionais de até 50 dólares, medida que ficou conhecida nacionalmente como o fim da chamada “taxa das blusinhas”. Mas, afinal, o que era essa taxa? A cobrança começou a valer em 2024 e aplicava um imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de pequeno valor feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. A justificativa do governo era combater fraudes, contrabando e garantir concorrência mais justa com a indústria nacional. O problema é que, na prática, milhões de brasileiros passaram a pagar mais caro justamente em produtos populares, comprados por consumidores de renda média e baixa. Agora, em pleno ano eleitoral, o governo recua e elimina a cobrança federal. O ICMS estadual continua existindo, mas o peso maior da taxação desaparece. E é impossível ignorar o momento político dessa decisão. O próprio debate dentro do governo já indicava que a medida era considerada impopular e afetava a imagem do presidente junto ao eleitorado. Afinal, o comércio eletrônico internacional se tornou parte da rotina econômica do brasileiro. Não estamos falando apenas de “blusinhas”, mas de eletrônicos, acessórios, utensílios domésticos e itens que muitas vezes custam menos do que os vendidos no varejo tradicional. É claro que toda redução de imposto agrada ao consumidor. Mas a pergunta que fica é: por que zerar agora uma cobrança que o próprio governo defendeu e ajudou a criar? A resposta, para muitos analistas, está no calendário eleitoral. E essa percepção ganha força quando observamos outra pauta que cresce em Brasília: as articulações em torno do chamado projeto “seis por um”. A proposta busca reduzir a jornada tradicional de trabalho, defendendo modelos mais flexíveis e menos desgastantes para o trabalhador brasileiro. O discurso é de melhoria da qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio familiar. Tem apelo popular imediato. Principalmente entre trabalhadores jovens e urbanos. O problema é que medidas populares costumam ter custo econômico — e alguém sempre paga essa conta. Enquanto o governo acena ao consumidor e ao trabalhador com redução de impostos e promessas trabalhistas mais leves, pequenos e médios empresários continuam reclamando do aumento da carga tributária provocado pela reforma tributária e por mudanças recentes no sistema fiscal brasileiro. E aqui está um ponto fundamental do debate! São justamente os pequenos e médios empresários que sustentam boa parte da economia nacional. São eles que empregam, movimentam comércio, prestam serviços e fazem a roda do PIB girar nas cidades do interior e nos grandes centros. Quando a carga tributária aumenta para quem produz, investe e emprega, o reflexo aparece nos preços, no custo operacional e até na geração de empregos. Há uma contradição evidente nesse cenário: de um lado, o governo tenta conquistar popularidade com medidas de forte apelo popular; do outro, amplia mecanismos de arrecadação sobre setores produtivos que já convivem com burocracia, juros altos e insegurança econômica. E talvez o maior risco esteja justamente aí. Cruzeiro FM, com você o tempo todo!!!