
Era uma vez um casal que se completava. Ele sabia cantar e ela dançar. Ela adorava cozinhar e ele amava comer seus quitutes. Ela acordava cedo e ele fazia o café. Ele tinha dores nas costas e ela mãos de fada pra fazer massagens. Ele adorava o miolo ela adorava a casca. Ele cuidava das plantas e ela colhia os frutos. E fazia suco. E faziam amor. E faziam a festa. Até que, um dia, o arroz salgou. As mãos endureceram e a garganta arranhou. O corpo engordou, o joelho inchou. O relógio não despertou e o pó de café acabou. O pão murchou e os beijos secaram. O toque rareou e a festa terminou. As plantas envelheceram e os frutos deterioraram. Ele sem entender nada, sai a procura de respostas. Uma moça com ancas largas atravessa a rua. Essa moça sabe fazer bolo de cenoura com calda durinha. Ela abraça o filho, e também não entende nada. Liga pra uma amiga, chora com vontade, e observa o celular. Lá tem um moço de boas palavras. E o casal divide as coisas, o filho assusta, o cachorro sente e os endereços mudam. E ninguém conversa. E brigam o tempo todo. E a criança sofre. Eles recomeçam, as vezes só ele, as vezes só ela. Um medo, uma esperança ou apenas um desejo. O amor de agora não aguenta um saquinho de açúcar nas costas. E se preparem, porque logo, logo o bolo de cenoura desanda e o moço de palavras doces, amarga. Está cada vez mais difícil encontrar histórias de amor raçudas. Não sei se o amor que esta fracote ou as pessoas que estão endurecendo. Os adultos de amanhã serão as crianças de hoje que não brincam (ou de repente já temos estes adultos...) não acompanham a vó na cozinha, não jogam queimada. Videozinho o dia inteiro. Ficam preguiçosas e sem criatividade. O amor é uma lida sim. É lidar com o tédio. É inventar moda. É criar. Não, não é prazer imediato. Não é um feed, não é um joinha, não é um acesso. Pra amar e ficar tem que saber frustrar se. Não que antigamente não havia separações e grandes estragos. Sei lá, mas na minha mente, o que bate agora com muita admiração e encantamento, é a imagem dos meus avós. Todos os dias eles assistiam a novela de mãos dadas. Ai vozinha e vôzinho que saudades de vcs...Vó Cora e vô Otaviano. Meus grandes amores e sobretudo...grandes amantes! Não tive a competência de vcs..., mas vcs mesmos me ensinaram, com o tijolinho, fogo (de verdade) e latinha que a gente pode brincar e fazer arroz quase de verdade. E que sempre há tempo pra quem é do bem ...obrigada meus tchucos queridos!! Eu sei, eu sei, temos que começar a fazer algo, antes que o amor, que é sim ensinado vire, folha ao vento... Eliana Andrea