
Tony Neves, em RomaO início de novembro aponta-nos sempre para Todos-os-Santos e Fiéis Defuntos e leva-nos, quer queiramos quer não, a fazer memória agradecida de quantos nos marcaram e Deus já chamou. Visitam-me sempre grandes amigos que partiram e hoje quero evocar a figura enorme do P. João Aguiar Campos, jornalista, poeta e escritor. Opto por ele porque me voltou a cair nas mãos a sua última obra, os ‘Cochichos’, publicada dois meses antes da sua morte. Conhecemo-nos muito cedo por terras de Braga, mas seria o jornalismo quem nos aproximou e fez de nós amigos e confidentes. Encontrou-me em Angola durante a longa e mortífera guerra civil. Acolheu-me sempre na Rádio Renascença, primeiro no Porto, depois no Chiado e, finalmente, nas atuais instalações na Estrada da Buraca, nas periferias da capital.Para quem não teve a graça de privar com ele, recordo que foi um padre-jornalista de Braga que exerceu cargos de enorme responsabilidade no âmbito da comunicação, a sua especialidade. Além do Diário do Minho e do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja, foi o responsável máximo da Rádio Renascença. Foi nesse período que se manifestou e desenvolveu o cancro que poria termo a uma bem sucedida missão.Recordo me como se fosse hoje das primeiras conversas após a descoberta do cancro que o vitimaria. Ainda guardo no coração a serenidade com que partilhou comigo esta notícia tão dramática, acompanhada de um humor inesperado: ‘eu tenho cancro, não é o cancro que me tem a mim! Eu sou o proprietário e ele apernas um inquilino que não paga renda! Ele vai ter que se ver comigo!’ E a verdade é que houve luta, lucidez e humor até ao fim...