
Neste capítulo, Pagu recria sua própria experiência no emblemático protesto de Santos, contra o julgamento de Sacco-Vanzetti, de onde saiu presa - a primeira mulher presa por questões ideológicas no Brasil. *** Os soldados erguem os uniformes e balançam as espadas sobre cavalos de crise, enferrujados, comidos de carrapato. Alguns se embriagaram com permissão superior e caracoleiam. Têm ordem de pisar e matar o proletariado irredutível. Marcham em pelotão na direção do Largo da Concórdia, pela noite que começa. — Não temos nem opinião nem vontade. São ordens! — Se eu mandasse, era o tenente que eu pisava! Um deles traz uma fita de fumo no braço. — Minha mulher é operária... Os vendedores de amendoim se ajuntaram. — Vai haver frege. Deixa voar daqui. — Eu vou esconder a cesta e volto pra ver! O pelotão trágico, pausado, se aproxima da multidão que enche a praça. Encabeça-o um oficial que tirou o revólver. O soldado de luto é um dos que vão na vanguarda. Vê a toda hora surgir em sua frente a companheira no meio das mulheres exaltadas. Subitamente empina o cavalo, se distancia. Fica para trás... — Minha mulher está aí. Vê quem vamos pisar! São nossas mulheres! Nossos filhos! Nossos irmãos! Um atropelo de recuo. Uma garota trágica desaba em vertigens histéricas. O pelotão divide e cerca lentamente a massa inquieta. Mas os investigadores policiais invisíveis penetram na multidão e se aproximam do gigante negro que incita à luta, do coreto central, a camisa sem mangas. Ao seu lado, um proletário que tem no peito cicatrizes de chibata, detém a bandeira vermelha. — Soldados! não atirem sobre os seus irmãos! Voltem as armas contra os oficiais... Detonaram cinco vezes. Correm e gritam. O gigante cai ao lado da bandeira ereta. O corpo enorme está deitado. Levanta-se mal para gritar rolando da escada. Grita alguma coisa que ninguém ouve mas que todos entendem. Que é preciso continuara luta, caia quem cair, morra quem morrer! A multidão toma conta da praça, expulsando num trágico minuto, delegados, secretas, cavalos... Levam-no de costas para um automóvel. A polícia, reforçada, carrega à espada e a tiro. A bandeira vermelha desce oscila, levanta-se de novo, desce. Para se levantar nas barricadas de amanhã. Carlos Marx entra correndo no galinheiro do Parque São Jorge. E diz no escuro à avó paralítica. — Fizeram no papai que nem na Rosa de Luxemburgo!