
Esse é um poema sem título, que faz parte do segundo livro de poesias do mineiro Pedro Salomon, intitulado Definições de fim de dia. Seu primeiro livro, também inédito, se chama Sabe o que, e em breve aparecerá por aqui. *** Nada dura mais que o milésimo de microssegundo do agora. De modo que sempre se está dobrando a esquina e fugindo do rótulo que insiste: "eu sou assim", "se fosse eu"... Se fosse eu não seria mais, já fui. De fato, há sempre um novo eu que nega o ridículo de "como costumo dizer". É que a cada passo emerge uma fagulha de vida, uma definição renovada de tempo-espaço. Como se a matéria fizesse seu dever involuntário de se desgastar, obedecendo cegamente às leis da física e da química e criando a percepção inexorável de que morremos um pouco a cada dia. E que renascemos, é verdade, parecidos com dia anterior mas já em um novo patamar, desfazendo milímetro por milímetro a confortável história que nos conecta da fotografia de bebê à imagem no espelho. Por isso também estamos sempre desmentindo os nós do passado e atando os nós do presente. Tudo dura menos que o instante, que conta menos que o agora.