
Aqui Graciliano conta sobre seu dia, sua aguardente e sua decisão de voltar a escrever o romance Angústia. Ló: estou comendo como um cavalo: Helena de ontem para hoje tem arranjado um almoços formidáveis. Acabo de almoçar e, como é natural, bebi um bocado de aguardente. Vou dormir. Em seguida retomarei o trabalho interrompido há cinco meses. Julgo que continuarei o Angústia, que a Rachel acha excelente, aquela bandida. Chegou a convencer-me de que eu devia continuar a história abandonada. Escrevi ontem duas folhas, tenho prontas 95. Vamos ver se é possível concluir agora esta porcaria. É quase uma hora. Creio que sapecarei o segundo horário da repartição. No quintal procurarei escrever a continuação do romance, que se passa num fundo de quintal, como v. sabe. Sairá uma obra notável. Nenhum artigo novo sobre o S. Bernardo: apenas um do Ceará, que a d. Clotilde mandou e que v. leu, parece-me. À noite vou terminar uma carta ao Oscar Mendes, de Minas, carta começada há mais de uma semana, antes da encrenca política. A propósito de encrenca: tudo continua como estava anteontem. Dois dias ganhos, portanto. Mas suponho que teremos sarapatel: consta-me que chegarão hoje do Rio, remetidos pelo general Góes Monteiro, uns ferrabrases acostumados a cortar cabeças. Sempre essa besteira: cortar cabeças, fazer montões de cinzas e sangue, salvar o Estado, toda uma literatura desmoralizada. É necessário que termine o meu romance, literatura menos besta que a outra, a política. Vou atirar-me a ele daqui a pouco, quando acordar. Mande-me dizer como aguentou a viagem. Lilita aborreceu-me muito? E d. Luísa? E nosso amigo Ricardo? Como vai o braço? Múcio recebeu o telegrama que Rachel passou em meu nome? Mande-me um relatório circunstanciado sobre a viagem. Por enquanto as coisas aqui estão calmas. Adeus, Ló. Abraços em minha mãe. Vou dormir. E, às seis horas, quando acordar, conversarei com a Marina e com Luís da Silva, excelentes criaturas, na opinião de Rachel e de Zéauto. Abraços do Graciliano. 22 de março de 1935. (Maceió) P.S. Comunico-lhe, para os devidos fins, que Helena pregou ontem o botão do pijama.