
Só pelo trecho é possível ver a prosa ligeira, que vale a leitura. Segue o texto: Quando Vicente se despediu, e montou ligeiro no cavalo que arrancou de galope, Conceição estirou-se na rede e ficou olhando o vulto branco que a poeira ruiva envolvia, até o ver se sumir atrás de um grupo de umarizeiras da várzea. Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo o que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso, apesar do desgosto que com isso sentia a gente dele. E a moça lembrou-se de certa vez, em casa do Major, no dia em que se inaugurou o gramofone, e as meninas, e ela própria, que também estava lá, puseram-se a dançar. Os pares eram o filho mais velho da casa - hoje casado e promotor no Cariri. - e dois outros rapazes, colegas dele, que tinham vindo passar as férias no sertão. Mal começou a dança, entrou Vicente, encourado, vermelho, com o guarda-peito encarnado desenhando-lhe o busto forte e as longas perneiras ajustadas ao relevo poderoso das pernas. A Conceição, pareceu que uma rajada de saúde e de força invadia subitamente a sala, purificando-a do falsete agudo do gramofone, das reviravoltas estilizadas dos dançarinos... Mas a mãe dele, que sentada ao sofá apreciava a dança, vendo-o, enxergou apenas o contraste deprimente da rudeza do filho com o pracianismo dos outros, de cabelo empomadado, calças de vinco elegante e camisa fina por baixo da blusa caseira. Já Vicente enlaçava a prima que, rindo, saiu dançando orgulhosa do cavalheiro, enquanto, na sua ponta de sofá, a pobre senhora sentiu os olhos cheios de lágrimas, e ficou ali chorando pelo filho tão bonito, tão forte, que não se envergonhava da diferença que fazia do irmão doutor e teimava em não querer “ser gente”... Passados porém alguns anos, já agora a velha senhora se conformava em não fazer de Vicente um doutor, e trazia-o ciumentamente preso a si, e o mimava a tal ponto, que fazia as irmãs protestarem: - Credo! Para mamãe, o Cente é mais mimoso do que mesmo o caçula!... Talvez fosse; pelo menos, era bem mais dela e do marido do que o Paulo, o bacharel. - Esse, ainda acadêmico, noivara com uma mocinha de Fortaleza, que os velhos só conheceram depois do casamento, casara e vivia lá para o Cariri, forçadamente e unicamente dedicado à mulher e à sogra, achando a vida do sertão “uma ignomínia”, “um degredo”, e tendo como única ambição um emprego público na Capital. Conceição compreendera bem esse sentimento na última vez em que conversara com a velha prima de Mãe Nácia sobre a vida dos filhos. Estavam as duas na janela do curral e Vicente vinha se aproximando com um copo de leite para a moça. Conceição perguntara: - Tia Idalina, que notícias tem dado o Paulo? - Boas... Vai muito bem, graças a Deus... Vicente, que talvez por não ter estudado não perdia ocasião de troçar dos doutores, zombou: - É o seu doutor promotor de Santa Ana... Almoça auto e janta libelo... Que o ordenado só dá pro fraque da sessão... Dona Idalina atalhou: - História! Sempre dá, e vão vivendo. Falam até em obter transferência para Fortaleza, ou alguma colocação no Rio. E mais baixo, passando a mão pelo cabelo de Vicente que, do lado de fora, lhe encostara a cabeça ao ombro: - Aquele está perdido para mim... *** Dona Inácia interrompeu a cisma da neta: - Conceição, minha filha, vem me ajudar a levantar este papelão da almofada.