
Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo Mitocôndria e Nilda Alcarinquë entrevistam o tradutor Reinaldo José Lopes sobre a nova tradução das obras de Tolkien. Conheça as polêmicas mudanças nessa nova tradução. Entenda qual foi o objetivo e caminho escolhido pela editora Harper Collins nessas novas traduções. Saiba mais sobre algumas das obras de JRR Tolkien. - Esse episódio possui transcrição, veja mais abaixo. -- LINKS -- Canal do Youtube do convidado -- EQUIPE -- Pauta, edição: Leonardo Mitôcondria Locução da abertura: Ira Croft Host: Leonardo Mitôcondria Participante: Nilda Alcarinquë Convidado: Reinaldo José Lopes -- APOIE o Mitografias -- -- Agradecimentos aos Apoiadores -- Adriano Gomes Carreira Alan Franco Alexandre Iombriller Chagas Aline Aparecida Matias Ana Lúcia Merege Correia André Santos Antunes Thiago Bruno Gouvea Santos Clecius Alexandre Duran Déborah Santos Domenica Mendes Eder Cardoso Santana Edmilson Zeferino da Silva Everson Everton Gouveia Gabriele Tschá Jonathan Souza de Oliveira José Eduardo de Oliveira Silva Leila Pereira Minetto Leonardo Rocha da Silva Leticia Passos Affini Lindonil Rodrigues dos Reis Mateus Seenem Tavares Mayra Nilda Alcarinquë Petronio de Tilio Neto Rafael Resca Rafa Mello Talita Kelly Martinez -- Transcrição realizada por Amanda Barreiro (@manda_barreiro) -- [00:00:00] [Vinheta de abertura]: Você está ouvindo Papo Lendário, podcast de mitologias do projeto Mitografias. Quer conhecer sobre mitos, lendas, folclore e muito mais? Acesse: mitografias.com.br. [Trilha sonora] Leonardo: Muito bem, ouvinte. No episódio de hoje, retornaremos a falar das obras de Tolkien, mas dessa vez não sobre sua mitologia, e sim diretamente sobre as obras. Para ser mais exato, sobre a nova tradução que as obras têm tido aqui no Brasil. E, com isso, hoje vamos conversar com o Reinaldo José Lopes, o responsável por essa tradução. Então, Reinaldo, muito obrigado por aceitar o convite. Você já participou aqui de um episódio do Papo Lendário, mas pode se apresentar para o ouvinte. Reinaldo: Obrigado pelo convite. Sempre um prazer estar aqui com vocês, com o Leonardo, com a Nilda, em especial, é uma amigona de muito tempo. Bom, eu sou jornalista de ciência e sou tradutor de Tolkien, e é basicamente isso. E desconhecido - o ilustre desconhecido também. Leonardo: Fala mais aí do seu currículo, essa parte de tradução aí relacionada à obra do Tolkien, que você tem um mestrado. Reinaldo: Na verdade, eu sonho em traduzir Tolkien desde que eu li Tolkien pela primeira vez, que foi em 1988, quando eu peguei o Silmarillion em inglês - foi a primeira coisa que eu li do Tolkien e gamei, apaixonei, fiquei louco naquilo. Enquanto não li todo o resto da obra, eu não sosseguei. E eu fiz jornalismo, mas eu quis fazer uma carreira acadêmica mais pela paixão no Tolkien mesmo, para realmente me tornar um especialista em Tolkien oficialmente, digamos. Eu pedi e consegui para ter como minha orientadora a Lenita Esteves, professora Lenita, muito querida, que foi tradutora das edições da Martins Fontes do Senhor dos Anéis e do Hobbit. Então eu passei com ela o mestrado e o doutorado - isso deve ter dado tipo uns oito anos, mais ou menos, de trabalho em conjunto com ela. E aí, então, eu fiz o meu mestrado fazendo uma tradução comentada do livro Tree and Leaf, Árvore e Folha, que agora finalmente saiu. O texto que eu traduzi no meu mestrado agora está saindo, agora mais completo, revisado e tal, mas foi o que eu tinha feito no meu mestrado. E aí o meu doutorado foi uma viagem maluca, que foi uma análise da pseudotradução. Para quem não sabe, aquela coisa de o Tolkien fingir que ele não é o autor dos livros da Terra Média, mas sim apenas um cara que pegou manuscritos antigos e traduziu aquilo para o inglês. Então eu analisei no doutorado como é que esse procedimento literário aumenta a sensação de verossimilhança, de realidade, de profundidade cultural da obra. Então basicamente foi isso o meu trabalho acadêmico com o Tolkien por enquanto. Leonardo: Por enquanto. Reinaldo: Por enquanto, espero fazer mais. Leonardo: E o mestrado e o doutorado estão acessíveis? Como que está? Reinaldo: Estão, dá para googlar aí e dá para achar facilmente. Se vocês googlarem o meu nome inteiro, Reinaldo José Lopes, mais Árvore das Estórias, com E, aparece o mestrado, dá para baixar o PDF lá no site da USP, e o doutorado é um título mais chatinho, porque é em inglês direto, que é With Many Voices and in Many Tongues, Com Muitas Vozes e em Muitas Línguas. Aí ficou, então, With Many Voices and in Many Tongues, pseudotradução, autorrefração e profundidade cultural na ficção de JRR Tolkien. Então esse é o doutorado, também se googlar, acha facilmente. Leonardo: Você começou com a questão do mestrado e doutorado, e aí só depois que você começou a de fato trabalhar traduzindo aí as obras. Reinaldo: É, na verdade, no mestrado eu traduzi. Como foi tradução comentada, foi uma coisa prática, então no final eu apresentei mesmo a tradução ali quase pronta - faltaram algumas coisinhas. Faltaram, sei lá, dois terços da peça de teatro que tem no livro, que eu não consegui traduzir inteira a tempo, porque era uma métrica muito maluca e muito trabalhosa, que eu só fui dominar para valer mais tarde. Mas já tinha sido a parte prática no mestrado, mas não tinha sido publicada comercialmente, de fato. Leonardo: E aí, de forma comercial mesmo, foi só agora com a Harper Collins, não é? Reinaldo: Exatamente. Leonardo: Como que foi que você conseguiu isso aí? Eles que te chamaram? Você foi até eles? Como que deu início a esse trabalho? Reinaldo: Cara, foi muita conjunção de fatores e de sorte mesmo. O que acontece é que eu tenho uma carreira como autor de livros de divulgação científica também, eu trabalho, meu dia a dia, na Folha como repórter e tal, tenho um blog, uma coluna, e eu também... ultimamente eu tenho, os últimos, sei lá, cinco, seis anos, feito vários livros, já estou com nove livros publicados de divulgação científica. E um deles eu fiz para a própria Harper Collins - agora já são dois, estou fazendo já o terceiro para eles, que a gente tinha falado na outra vez que eu estive aqui no podcast, que foi o 1499, o Brasil Antes de Cabral, de pré-história do Brasil. Eu fiz para a Harper esse livro, ele foi bem e continua vendendo muito bem, graças a deus, até hoje. É o meu bestseller. Acho que já vendeu quase 20... vendeu 25 mil exemplares já pelo Brasil. Nilda: Toda vez que alguém vem falar alguma coisa sobre indígena brasileiro, eu falo: "Pega esse livro aqui e lê primeiro antes de falar besteira", pronto. Sabe? Ele é muito bom para tirar algumas coisas que você tem sobre indígenas brasileiros, sabe? Aquela coisa errada. Leonardo: É, os estereótipos. Reinaldo: Pois é, e aí foi meio que tirar esses estereótipos. Mas, enfim, aí então eu iniciei uma relação muito boa com a editora e eu sabia que a Harper é a editora do Tolkien no Reino Unido, na Inglaterra, e eu queria muito que um trabalho, digamos, mais consistente fosse feito com a obra do Tolkien no Brasil, que a gente pudesse trazer para cá os livros (inint) [00:06:36] que não pareciam ter um horizonte muito grande de sair no Brasil tão já e tudo mais, e eu joguei para a minha editora, a Renata Sturm, na época. Eu falei: "E aí, Renata, será que não tem essa chance? Eu queria muito poder ajudar", e aí ela me falou, então, do Samuel Couto, que hoje é o cara que está tocando todo esse projeto do Tolkien na Harper. Falou: "Ah, não, o Samuel, que é um grande fã de Tolkien também, está em negociações com a Harper britânica e eu acho que você vai ter boas notícias sobre isso logo". Isso foi tipo outubro de 2017, se eu não me engano. Aí, no começo de 2018, o Samuel entrou em contato comigo para contar que eles tinham conseguido os direitos da obra inteira, que eles queriam realmente dar uma repaginada na maneira como Tolkien era visto no Brasil, dar uma visão de literatura de alto nível para o Tolkien no Brasil e não apenas uma coisa que tivesse no nicho de nerd, embora sem abandonar esse nicho, obviamente, e ele perguntou o que eu poderia contribuir na obra. Originalmente, ele queria até pegar grandes nomes da literatura brasileira para traduzir Tolkien, estava pensando em nomes e tal, não sei o quê. Puxando a brasa para a minha sardinha, eu meio que contra-argumentei achando que o pessoal da Academia Brasileira de Letras não ia querer, talvez, mexer com Tolkien a princípio pelo preconceito, e aí eu falei: "Ah, vou chutar alto, quem sabe ele aceita", eu falei: "Cara, eu queria muito traduzir o Simarillion, por favor. Se você puder me dar essa oportunidade, vai ser a coisa que eu mais queria na vida, é o livro da minha vida até hoje, o livro que eu mais amo do Tolkien", enfim. Ele falou: "Está bom, toma", eu falei: "Putz, devia ter pedido mais coisa já que foi tão fácil assim". E a partir de aí... e aí ele já me contou que o Ronald Kyrmse, mestre Ronald, nosso colega do conselho de tradução, estava traduzindo também já o Beren e Lúthien, e alguns meses depois... talvez acho que dois meses depois de ele ter topado o Silmarillion, apareceu o lançamento da Queda de Gondolin em inglês, e aí ele falou: "Olha, a gente vai tentar lançar pela primeira vez ao mesmo tempo que sai na língua inglesa, sair no Brasil. Você quer fazer?", eu falei: "Não, lógico que eu quero". De novo era coisa da primeira era, coisa que tinha a ver com o Silmarillion, e eu pus na frente, então acabei primeiro a Queda de Gondolin e depois o Silmarillion, e aí a gente formou o conselho de tradução... o Samuel formou um conselho de tradução mais formalizado mesmo para lidar com a obra, e aí a bola foi rolando. Estamos aí desde então. Então começou em março de 2018, eu acho, ou fevereiro, e estamos nessa até hoje. Leonardo: Então o objetivo da Harper Collins aí, nesse caso, seria pegar, trazer todas obras,