
Nada se aprende sozinho Maria Lira Marques Assim como aprendi muitas coisas com a minha mãe, também aprendi com outras pessoas, que foram falando comigo ao longo da minha caminhada. Até hoje, eu aprendo. É importante as pessoas criarem, terem vontade de trabalhar, gostarem do que sabem fazer, mesmo se não tiverem recursos. Porque, no fim, tudo que precisamos a natureza nos dá. Toda a riqueza está na terra e, depois que morremos, também viramos terra. Se soubermos aproveitar isso tudo sem danificar a natureza, é maravilhoso, pois fazemos parte dela também. Para fazermos o nosso trabalho como artistas e artesãs, basta apenas que a natureza exista. É dela que tiramos o nosso sustento, seja para o alimento ou até mesmo para fazer arte. A terra, as plantas, a água e todos os elementos que encontramos em nosso entorno estão ali para nos inspirar e nos ensinar, mas só conseguimos aprender com eles se estivermos dispostos a observá-los com cuidado. Eu sou uma artista nascida e criada em Araçuaí, uma cidade no sertão do Vale do Jequitinhonha (MG), e nunca estive em uma escola de artes. Tudo o que eu sei, hoje, aprendi observando a natureza, a terra e o barro – relação que começou a fazer parte de mim desde o momento em que eu via a minha mãe trabalhar.Em ocasião de Natal, a minha mãe, Dona Odília, fazia presépios de barro e doava para as famílias da minha rua. Todo final de ano, a vizinhança já cobrava, querendo um presepinho. Como ela não tinha forno, fazia as peças cruas e pintava com tinta a óleo, o que as deixava mais frágeis e fáceis de quebrar. Se alguma família acabasse quebrando seu presépio, no ano seguinte, minha mãe o fazia novamente. Nessa época, eu ainda era criança e ficava observando e pensando: “Eu quero fazer o que a minha mãe faz, eu quero ser o que minha mãe é”. O meu pai era sapateiro e tinha aqueles bolos de cera para passar nas linhas e costurar os sapatos. Quando comecei a seguir os passos de minha mãe, não usei o barro, mas essa cera: eu a colocava na brasa, a derretia e fazia o que eu mais gostava, que eram meus bichinhos. Cresci vendo minha mãe fazer suas peças de barro, que eram presepinhos, mas também bonecas, cujas roupas ela mesma costurava à mão. Ela era uma pessoa muito curiosa e tentava fazer de tudo. Apesar de ter sido uma mulher pobre e sem muita oportunidade de estudar, ela tinha uma caligrafia lindíssima, conseguia ler qualquer coisa e, também, gostava de arte. Para mim, a minha mãe era uma artista.Tempos depois, eu comecei a visitar as feiras do Mercado Municipal de Araçuaí, onde as artesãs da Baixa Quente, uma comunidade da região, vendiam suas panelas, seus potes e caqueiros de barro. Eu ficava observando os utensílios e perguntando sobre como eram feitos, e descobri que cada uma delas tinha sua maneira de trabalhar, de dar o polimento ou de queimar para produzir uma cor específica – tudo que elas falavam ficou guardado comigo. Ao chegar em casa, questionava minha mãe sobre o porquê de as peças que ela fazia serem diferentes das que as artesãs vendiam, e ela me explicava que não tinha forno para queimar o barro. Para dar durabilidade e resistência às peças cruas, ela misturava cinzas e farinha de trigo ao barro.Outra pessoa que me ensinou muito sobre o barro foi a Dona Joana, uma vizinha bem velhinha que fazia os próprios potes e vasilhas. Certa vez, ela me levou ao barreiro, como chamávamos a olaria de Araçuaí, onde, na época, se trabalhava de maneira artesanal. Eles faziam telha por telha, tijolo por tijolo. Chegando lá, de madrugadinha, o pessoal já estava trabalhando: eles abriam um grande buraco de onde tiravam o barro e iam amassando com os pés, batucando e sapateando como se fosse uma dança. Dona Joana me explicou que esse barro, chamado de desmonte, não prestava, e que o melhor para nós era o barro que estava mais profundo. Nessa ocasião, ela também me explicou que a melhor lua para tirar o barro era a lua fraca, porque, quando se tira o barro em lua forte, ele racha com mais facilidade.Dona Joana foi uma grande mestra ceramista de Araçuaí e, também, me ensinou sobre a queima e o madeiramento. Ela dizia que era preciso escolher bem a lenha, que essas madeiras grossas, de cerne, produziam uma brasa muito forte que quebrava as peças dentro do forno. Ela me mostrou, também, os tipos de folhas queimadas junto do madeiramento para que as peças ganhem um brilho para além do polimento, e me ensinou quanto tempo se deve deixar a cerâmica queimando. Ela dizia que era necessário começar a colocar a lenha na boca do forno, para não estourar tudo, e ir atiçando o fogo aos poucos. Enquanto a fumaça sair preta, significa que a língua do fogo está passando nas peças e limpando-as aos pouquinhos. Quando a fumaça começar a ficar clarinha, é porque o que está no forno já está queimado e pronto.Todos esses ensinamentos de Dona Joana se misturaram com aqueles que minha mãe me transmitiu, desde que eu era pequena. Essa noção dos astros na nossa vida e na retirada do barro foi algo que minha mãe, que sempre rezava para a lua, já vinha nos ensinando. Na primeira vez que a lua aparecia no céu, em cada estação, nós rezávamos a oração: “Deus te salve, lua nova, o primeiro dia em que te vi. Me livra de fogo ardente, águas correntes e língua de má gente”, seguida de um pai-nosso e uma ave-maria. Minha mãe só cortava o cabelo na lua crescente e meu avô só tirava cipó para amarração das casas de pau a pique na lua fraca. Esses conhecimentos nós sempre tivemos dentro de casa.Também sabia um pouco sobre o madeiramento, porque busquei muita lenha no mato para acender o forno no qual minha mãe cozinhava. Ela também me dizia para pegar madeira fina, como a canela-de-velho, a maria-preta, a farinha-seca e a vaqueta. Disso tudo eu já tinha uma noção por causa da minha criação e da nossa lida com a natureza. Posso dizer que, do meu ofício, eu aprendi um pouco com minha mãe, com as perguntas que eu fazia no Mercado Municipal, com a Dona Joana e também nas exposições de artesanato na PUC-MG, em Belo Horizonte (MG), para onde nós íamos todos os anos.Nada se aprende sozinho no Vale do Jequitinhonha. Na Baixa Quente, por exemplo, é mãe, filho e marido fazendo telha e tijolo de barro. Eles colocam muito barro no terreiro, jogam água e todo mundo começa a sapatear. Depois, eles cortam o barro com uma foice bem amolada, que é passada de um lado para o outro, e começam a sovar para a massa ficar homogênea. Por fim, eles fazem aqueles bolos de barro e guardam em sacos plásticos para conservar a umidade. Essa foi outra sabedoria que eu aprendi observando e, também, experimentando em casa: se eu vejo que algo não dá certo, eu não continuo, mas, se eu percebo que vai dar certo, eu sigo em frente. É dessa maneira que a gente aprende.Meu trabalho com o barro começou a partir das esculturinhas e das máscaras que eu costumava fazer. Eu sempre gostei de observar a expressão e o formato do rosto das pessoas, que dizem muito sobre a história delas. Cada rosto é um: uns são redondinhos; outros, triangulares; outros, mais ovais – formas que eu sempre reparo. Assim como muita gente do Vale do Jequitinhonha, eu venho de uma descendência de negros e indígenas, e minha mãe sempre falava dessa nossa condição estampada em nossos rostos. Ela dizia que eu só poderia vestir azul, branco e rosa, porque, segundo ela, era ruim as pessoas negras vestirem cores mais berrantes, pois chamavam muita atenção. Por essas histórias contadas, eu via que o povo negro sofreu muito, e isso aflorava minha sensibilidade. Comecei fazendo máscaras com expressões de negros e de indígenas, umas chorando, outras com um semblante mais brando e outras mais desesperadas. Isso mostra aquilo que sentimos dentro de nós, igual a uma pessoa que faz uma música que fala de luta ou alguém que faz uma poesia mais forte. Eu mostro o que sinto a partir do que eu faço, que é o barro e é a pintura. Tudo isso, que nós sentimos, nós arrancamos para fora através da arte.Quem me incentivou a passar do barro para a pintura foi meu amigo Frei Xico, um padre franciscano que veio da Holanda e que conheci em Araçuaí, quando ele pesquisava a cultura do Vale do Jequitinhonha. Quando ele me pedia para desenhar, eu dizia que não sabia, e ele me respondia, mostrando uma das minhas máscaras: “Isso que você faz aqui é desenho!”. E eu pensava que não sabia, porque nunca tinha pegado em um pincel, e que só o barro me dava garantia. Mas, no momento em que segui o conselho do Xico e comecei a desenhar os bichinhos do meu sertão, não parei mais. Eu sempre gostei dos bichos e, lá em casa, nós sempre criamos muitos animais – cachorros, gatos, cabras, galinhas e porcos, que, na minha época de pequena, eram o dinheiro do pobre. Nós sempre fomos ligados à natureza. Mas esses bichos que eu comecei a desenhar eram outros que vinham voando na minha imaginação e que sempre foram parte de mim – tanto que, no início, quando as pessoas queriam comprar as pinturas, eu não vendia, porque cada bicho que eu colocava no mundo era como se fosse um filho meu.Nesse início dos desenhos, Frei Xico sugeriu que eu pintasse com tinta acrílica e nanquim, mas essas tintas não tinham corpo. Eu sempre preferi a tinta de terra que, assim como o barro que eu usava nas cerâmicas, era encorpada e tinha as cores do Vale. O preparo dessas tintas é simples. Basta colocar um pouquinho de terra, um pouco de água e um pouco de cola em uma vasilha e mexer. Vou passando a tinta no papel e colocando no sol para ver se pega direitinho, porque a secagem da terra precisa ser pelo sol. Depois que o desenho seca, eu passo outra demão e vou testando, porque as terras não são iguais: tem terra que é mais arenosa e outras são mais gomosas, que parecem uma maisena. (Continua...) _ NARRAÇÃO VER COM PALAVRAS Narração: Andréia Paiva