
O corpo fora do corpo Priscila Leonel Às vezes, pressupõe-se que o pensamento decolonial é apenas buscar a matriz africana e a dos povos originários. Mas essas origens africanas e indígenas estão também nos nossos corpos e nas nossas famílias, nas nossas próprias histórias, na construção de nossa ancestralidade e naquilo que é importante para nós. O barro é o encontro de tudo isso, e o contato com ele cria uma imersão que reaviva outras histórias, origens e lembranças, tanto pessoais como coletivas.O barro é o encontro de histórias ancestrais. É uma terra viva e cheia de memórias, carregando em si tudo aquilo que encontrou durante seu percurso e o contínuo processo de transformação dos elementos que o compõem. Depois de deixar seu terreno natural, a terra sedimentar viaja até se assentar e, no novo território, vai se modificando, lentamente, até se transformar em argila macia e plástica. Depois de modelada e queimada, a argila adquire novas características e, para voltar a ser essa matéria maleável e acolhedora ao toque, precisa passar, novamente, por longos processos de transformação. Da mesma forma, a história do povo negro, após a diáspora, é composta por um processo de se assentar em outro território, de se modificar e se transformar nele para, então, se descobrir potente.Quando encontrei a argila pela primeira vez, no primeiro ano da graduação em artes visuais, moldei uma peça grande, representando uma mulher, com seios enormes, em posição de meditação, escurecida e manchada pela queima primitiva. Na época, eu não sabia o quanto essa peça seria importante para mim. Depois, no segundo ano, comecei a fazer várias outras bonecas de barro, todas com os seios grandes. Quando minha professora de cerâmica me disse que bonecas normalmente não têm os seios tão grandes, eu fiquei pensando naquilo e fui conversar com a minha mãe. Ela me contou que, quando eu tinha cerca de um ano e meio, ela precisou ficar internada e, desde então, eu parei de mamar. Depois que essa história veio à consciência, deixei de fazer as bonecas com os seios tão grandes.É como se esse relato tivesse começado um processo de cura guiado pelo contato com o barro e com as memórias que ele pode reavivar. Quando criança, uma perda muito grande me causou um bloqueio de memória infantil, e eu cresci com isso. Enquanto toco o barro, acontece uma imersão que me traz, naturalmente, várias lembranças. Eu via um ponto de encontro entre as minhas experiências com bloqueio de memória, o barro e os apagamentos da ancestralidade negra, que era um assunto sobre o qual quase não se falava, naquela época, na faculdade. É claro que algumas questões pertencem à esfera individual, mas havia uma possibilidade de se pensar em uma cura social para os apagamentos causados pelo racismo estrutural.Anos depois, no meu doutorado, eu quis pesquisar esses processos de cura, então comecei a experimentar a junção entre a argila e as ervas curativas, associadas às religiões de matriz africana, aos saberes indígenas e aos conhecimentos populares. A ideia era energizar o barro com as substâncias curativas que existem nas plantas. Fui até uma loja de ervas em Sorocaba (SP), onde eu morava, na época, e escolhi 10 entre as 313 plantas disponíveis ali. Coloquei cada erva em uma bacia com água limpa e deixei repousar por três dias, até os elementos curativos se desprenderem no líquido. Depois, coloquei a argila para viver nesse caldo por 20 dias, com reposição conforme a água ia secando. Mesmo que muito do que a argila estava absorvendo se esvaísse durante a queima, ela nunca mais seria a mesma – não ficaria a cor das ervas, tampouco o cheiro, mas ficariam a essência e a memória daquilo que passou por ali. Com essas argilas alimentadas pela cura das ervas, eu produzi muitas outras bonecas. Eu me arrisco a dizer que esses processos de cura e ativação de memórias não acontecem só comigo. Ao fazer as peças de barro, eu imaginava que elas eram memórias só minhas, mas o que eu comecei a perceber é que as pessoas tinham relações profundas com as próprias memórias ao se encontrarem com as minhas peças. Cada uma delas é uma parte de mim, viva, contando histórias para quem consegue ouvi-las.A experiência com estudantes da Unesp de Bauru (SP), onde atualmente sou professora de cerâmica, revelou outras histórias transversais ao barro e à prática da cerâmica. Lá, os alunos recebem gratuitamente a argila terracota, de cor laranja, comprada de uma olaria próxima à universidade. Mas alguns deles compram a própria argila, geralmente a branca, por julgarem que ela é melhor do que a terracota. Ao observar isso, fui percebendo que as referências sobre cerâmica encontradas pelos estudantes reforçavam um imaginário ligado ao mercado – que prioriza a argila branca, o uso do esmalte, o torno e a queima em alta temperatura. Dentro da academia e dos grandes ateliês de São Paulo, existe um pensamento de que a cerâmica popular é ruim, de que a argila terracota é porosa demais e de que a queima de baixa temperatura é inferior. Mas, se eu vou fazer uma escultura, em vez de uma xícara para colocar café, por que ela não pode ser porosa? E se a queima da cerâmica é um processo, em alguma medida, imprevisível, por que as manchas não são valorizadas? Com isso, até o conceito de beleza é colocado em discussão.Muitas vezes, os estudantes queriam fazer apenas potinhos, xícaras, gatinhos ou cópias das esculturas clássicas. Para repensar o conceito de arte e apresentar outras referências, convidei-os a olhar para a própria história, os objetos que habitam suas casas, as memórias que os cercam e a relação de cada pessoa da família com eles. Às vezes, pressupõe-se que o pensamento decolonial é apenas buscar a matriz africana e a dos povos originários, mas é também considerar a vida, as nossas histórias e aquilo que é importante para nós, pois essas origens africanas e indígenas estão nas nossas famílias. E quando você abre espaço para a sua história, você abre espaço para as histórias coletivas também.Durante a minha graduação, falava-se muito sobre a cerâmica europeia e a norte-americana, mas pouco ou nada sobre a cerâmica originária, africana e diaspórica. No meu doutorado, junto à pesquisa sobre a cura, comecei a procurar os artistas negros que fazem cerâmica e tive muita dificuldade em encontrá-los. Isso é resultado de um sistema social que dificulta o acesso, além de produzir apagamento e exclusão – quando as pessoas negras fazem cerâmica, sua produção é chamada pejorativamente de “cerâmica popular” e afastada das academias e dos museus.Um professor e fotógrafo norte-americano chamado Christopher D. Roy, que dava aula de História da Arte Africana, na Universidade de Iowa, na segunda metade do século 20, também teve dificuldade para encontrar materiais sobre cerâmica africana para mostrar nas suas aulas. Por isso, ele foi até o continente africano e fez muitas fotografias de objetos de cerâmica, além de vídeos da produção das peças e uma extensa pesquisa sobre cultura material.Além das imagens feitas pelo professor Roy, a arqueologia também foi uma grande aliada nas minhas pesquisas. Algumas investigações arqueológicas revelaram que as peças feitas no continente africano antes da colonização eram muito parecidas com as que o professor encontrou em sua viagem. Isso mostra que eles continuam produzindo o mesmo tipo de cerâmica, e que as técnicas são um conhecimento que vem desde as gerações anteriores, transmitido entre os membros das famílias. Comecei a pesquisar também sobre a cerâmica crioula que os povos negros produzem no Brasil e que, além de ter características das cerâmicas negras e originárias, também carrega o imaginário da porcelana trazida pelos europeus, com a qual as mulheres que trabalhavam nas casas e serviam as mesas tinham contato frequente.Para buscar as conexões e continuidades entre a cerâmica na África e no Brasil, fiz um mapeamento dos lugares de origem dos povos da diáspora e, depois, procurei nos livros de história as cerâmicas desses povos na África. Se eles faziam cerâmica por lá, provavelmente continuaram fazendo depois que foram trazidos para cá. Encontrei referências de cerâmica feita na região norte do continente, principalmente Nigéria e Golfo do Benim, e, também, em Angola e Moçambique. Há mais pesquisas na Nigéria, pois a arqueologia que se deu ali é muito maior – os alemães fizeram escavações não por interesse nas histórias dos povos, mas por razões capitalistas, em busca de pedras preciosas ou outros objetos de valor econômico.No Brasil, pesquisas arqueológicas realizadas em terrenos de antigas senzalas encontraram uma boa quantidade de cachimbos de barro, que eram utilizados pelas mulheres. Quando foram feitos testes nesses materiais, percebeu-se que uma parte deles foi feita com barro africano e a outra parte foi feita com barro daqui. Isso mostra que alguns pequenos objetos de cerâmica atravessaram o Oceano Atlântico junto com as pessoas, que trouxeram também os conhecimentos sobre seus usos e modos de produção.O povo negro foi arrancado de seu território e levado para outro continente, trazendo poucos objetos e muitos saberes. Assim como a transformação da argila envolve a morte de plantas e animais na terra, o nosso povo também morreu. Após a escravidão, o povo negro foi largado sem emprego, sem estudo, sem nada. As mulheres negras se tornaram empregadas domésticas – destino também da minha avó. Mas, como o barro, isso vai se transformando lentamente e, hoje, eu vejo que há uma mudança progressiva em curso.Em outubro de 2021, foi publicado um artigo na Revista da Fapesp que, para mim, é muito significativo. Dez anos após a política de cotas, a revista fez uma análise de todas as universidades do Brasil, tentando avaliar os tipos de pesquisa que têm sido feitos atualmente. (Continua...) _ NARRAÇÃO VOZES DIVERSAS Narração: Dri Carvalho