
Tkai wamsrë, wanõrtê dasiwawë Nei Leite Xakriabá As artes indígenas são ancestrais, e suas manifestações fazem parte de uma rede viva de significados que contam sobre a natureza e a vida, as lutas e o território, a memória e a tradição do povo. A cerâmica sempre foi parte importante da vida cotidiana nas aldeias Xakriabá e, atualmente, sua prática e sua circulação têm se intensificado graças a um processo de retomada cultural das tradições e expressões de resistência do povo. Entre os Xakriabá, o barro é considerado um parente ancestral, pois traz em seus elementos as forças dos antepassados. Sempre ouvi os dasiwawë – nossos anciões – falarem que, no passado, nossos objetos eram todos artesanais e havia uma grande quantidade de cerâmica no nosso dia a dia: o bule, a chaleira, o cachimbo, o pote e as botijas para guardar água, a cuscuzeira, o tacho de fazer farinha e beiju, as panelas para fazer azeite de mamona e para cozinhar em festas e casamentos, além de pratos e sopeiras para servir alimentos. Também era de cerâmica a candeia de alumiar a noite com azeite de mamona, que era utilizada até bem recentemente por algumas parteiras. Naquela época, as crianças brincavam com brinquedos que elas mesmas faziam, como a perna de pau e a gangorra, além de bonecos e animais feitos de ze, como chamamos o barro.Os antigos ceramistas do povo Huminixã, também conhecido como Xakriabá, andavam pelas aldeias trocando objetos de cerâmica por alimentos ou por pequenos animais. Naquele tempo, havia o costume de presentear os noivos com utensílios de cerâmica. Com o passar do tempo, eles foram substituídos pelos objetos industrializados e os artesãos deixaram de fazer suas peças. Quando a energia elétrica chegou e, consequentemente, a geladeira, os potes de armazenar água também perderam espaço na vida cotidiana. Os usos dos objetos de cerâmica foram diminuindo gradualmente e, por um bom tempo, parte de nossas práticas artísticas ficaram adormecidas, permanecendo guardadas junto a alguns poucos objetos artesanais e na memória dos dasiwawë, considerados livros vivos de nossa cultura xakriabá.A minha nchtari – mãe –, Dona Dalzira, nascida e criada na Aldeia Itacarambizinho até os 18 anos de idade, conta que começou a modelar suas primeiras peças ainda na infância, vendo uma de suas tias fazendo um bichinho de ze e observando os animais do Cerrado que seu pai caçava e levava para casa, como o veado, o tatu, o coelho, o preá e o gato do mato. Dona Du, moradora da Aldeia Barreiro Preto e avó da minha esposa, relatou que ela mesma fazia suas panelas para cozinhar alimentos, assim como sua mãe e sua avó fizeram antes dela. Ainda hoje, Dona Du guarda um pequeno cachimbo modelado por sua avó e uma panela feita por uma moradora do Brejinho. Conta que essa panela foi utilizada em 1962 para cozinhar feijão para o jantar do seu casamento com o seu esposo, Augusto, e que a usou por vários anos, inclusive para cozinhar alimentos para o jantar do casamento de quase todas as suas filhas. Depois, passou a utilizá-la apenas para fazer sabão preto e o azeite de mamona usado em seu trabalho como parteira.Esses objetos e corpos registram e guardam conhecimentos ancestrais e muitas histórias do meu povo Xakriabá. A cerâmica é feita com o ze que vem da tka – a terra, nossa mãe e cuidadora, a quem devemos respeitar e com quem devemos conviver. Nessa relação, entendemos que somos parte da natureza e que a natureza é parte de nós. Durante a modelagem, temos que ter pensamentos positivos, pois o ze sente nossas vibrações, nos ouve, nos modela, nos conecta e nos desconecta com nosso corpo. Ele é quem nos conduz: aceita ser modelado, mas exige que saibamos escutá-lo, senti-lo e observar o mundo à sua volta. Não basta apenas ter mãos bem treinadas e conhecimentos sobre as técnicas de modelagem, é necessária a permissão da oá, como chamamos a lua, da tka e do ze para obter bons resultados no final do processo. Assim como a oá tem autoridade sobre a tka, a tka tem autoridade sobre nós.Nessa experimentação prática com o ze, em determinados momentos, as necessidades físicas sequer são percebidas. Esquece-se de se alimentar, de ir ao banheiro, o passar das horas não é percebido e até a lembrança de outras atividades e os conflitos do dia a dia caem no esquecimento. Tudo isso apenas revela que, em contato com o ze, vive-se uma relação com todo um ambiente, no qual não se domina o barro – antes, é ele quem nos domina. Pode-se dizer que o ze se inscreve no próprio desenvolvimento corporal do artesão, além de ocupar diferentes lugares nas aldeias, como o interior das casas, dos ateliês, da escola e dos fornos coletivos. Além disso, o conjunto dos fazeres dos diversos artistas com a cerâmica vai traçando trilhas no próprio ze, nos barrancos, nas encostas das lagoas ou nos próprios quintais, constituindo uma malha emaranhada que compõe as paisagens das aldeias e do território. Compreendendo os artistas e o ze a partir de uma relação de descendência, pode-se dizer que vidas transformam o ze, mas também são transformadas por ele.O ze tem o dom de ligar as pessoas que o experimentam, de torná-las parte de um grupo, uma família, uma associação, conferindo unidade e solidariedade ao coletivo, como se todos tivessem uma relação de "filiação" a ele. Talvez seja por isso que os mais velhos ensinam que o ze tem muitas descendências. Além disso, ele é filho da tka, que cria e oferece sustento para todos. Como a tka é mãe, o ze também tem um parentesco com nosso povo. Como dizemos em nossa língua, tkai wamsrë, wanõrtê dasiwawë – “o barro é nosso parente ancestral” –, pois traz em seus elementos as forças dos antepassados. O corpo se mistura a ele quando ocorre a morte, a passagem para outro plano. O saudoso vice-cacique Rosalino Gomes afirmava que não tinha medo de morrer em luta pela terra, pois seu corpo serviria de adubo. Essa sua fala reverbera ainda hoje.Em nosso território há uma grande variedade de tipos de ze. Temos os mais puros, que são mais plásticos, e outros com uma quantidade maior de areia e pedrinhas miúdas, que são menos plásticos. Quando não é possível encontrar na natureza o ze mais apropriado, são acrescentados farelos miúdos de outras peças queimadas anteriormente. Essa mistura de cerâmica triturada é usada no preparo do ze para fazer panelas, que precisam ser mais fortes para resistir ao fogo do fogão à lenha. O ze branco, chamado pelos nossos dasiwawë de tubatinga, é o mais resistente – suporta uma temperatura mais alta na queima – e também o mais raro de todos, encontrado apenas nas aldeias Forjes e Pindaíbas. Já os ze azulados, amarelados, avermelhados e escuros são encontrados em diversas aldeias da Terra Indígena Xakriabá. Cada tipo de ze revela suas qualidades somente através do ciclo cerâmico: a coloração e o aspecto mudam depois da queima, podendo ficar mais avermelhados, rosados, embranquecidos, foscos e brilhantes, dependendo da temperatura utilizada e também do tipo de forno.O ze é coletado nos barrancos das grotas, em beiradas de lagoas e barragens ou, até mesmo, dentro dos pequenos riachos ou formigueiros, sempre variando os lugares e as aldeias para evitar a erosão no solo. Aprendemos com nossos dasiwawë que as quadras da oá e o ciclo das chuvas nos “falam” o tempo certo de pedir para a nchtaritka, a mãe terra, permissão para buscar o ze. Durante o tempo do broto, da oá minguante e nos três primeiros dias da oá nova, o ze fica fraco e corre o risco de rachar.Antes da queima, as peças são decoradas com os mesmos motivos gráficos da pintura corporal xakriabá. Usamos os toás, que são pequenas rochas minerais encontradas nas grotas e nos barrancos, que se dissolvem com facilidade ao serem misturadas com água. Assim como o ze, há uma grande variedade de cores de toás disponíveis no nosso território xakriabá – amarelos, vermelhos, brancos, marrons, verdes e azulados –, que também podem mudar de cor depois da queima.A reinserção da cerâmica na vida cotidiana xakriabá faz parte de um longo processo de retomadas culturais, compreendidas ora como um avivamento ou recuperação, ora como uma ativação das práticas tradicionais relacionadas à língua, à arte, à pintura corporal, ao mundo dos encantados, ao toré e ao segredo, entre outros saberes e expressões de resistência do povo. A escola indígena tem sido uma das aliadas nessa luta desde quando a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE-MG), com o Programa de Implantação de Escolas Indígenas, em 1997, passou a contratar somente servidores do próprio povo. Com a presença exclusiva de professores indígenas e a prática de uma educação diferenciada, a escola ganhou autonomia para construir o próprio currículo e o calendário, de acordo com a realidade de cada aldeia e com a participação de toda a comunidade, respeitando os dias sagrados, os eventos locais, as reuniões da associação comunitária e as datas marcantes. Os professores passaram a fazer o curso de Magistério Indígena, que foi uma conquista xakriabá junto à SEE-MG, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em seguida, foi criado o curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas, da Faculdade de Educação da UFMG, que resultou em várias pesquisas de nossos povos. A escola, como instituição, passou a ter mais sentido para nós, formando pesquisadores indígenas alimentados pela ideia de pertencimento étnico, preparados para viver na sua terra e também para transitar no mundo dos ktãwanõ, os não indígenas, sem abandonar suas raízes.Quando comecei a atuar como professor de artes na escola indígena, escolhido pelas lideranças xakriabá, em 2002, eu procurei minha mãe, nchtari, para aprender com ela o manejo do ze e levar esse conhecimento aos estudantes. (Continua...) _ NARRAÇÃO POTYGUARAS Narração: Juão Nyn