
Saber onde pisar Mãe Celina de Xangô A ancestralidade não é algo que ficou no passado, mas se faz presente o tempo todo ao longo de nossas vidas. E não é possível falar de ancestralidade sem falar da natureza, da terra, do ar, do vento, do sol, das fases da lua, dos quatro elementos, do tempo e das estações do ano. O barro em que pisamos traz as memórias da terra pisada pelo povo negro, das travessias e dos artefatos cerâmicos que vieram do outro lado do Atlântico, onde a barraria é algo muito sagrado. Falar do barro é falar da vida e da morte.Foi ao sair do Rio de Janeiro para visitar, pela primeira vez, a cidade de Uidá, no Benim, que eu percebi o quanto a ancestralidade fala conosco muito de perto. Uidá é uma cidade toda feita de barro, com três tonalidades de terracota – uma mais forte, uma média e uma mais fraca. Essas tonalidades estavam presentes nas paredes, nos muros das casas, na terra em que nós pisávamos e, também, nos campos de plantio. E uma das muitas coisas de que me lembro da minha infância era que o terreiro da minha avó tinha os mesmos tons de barro. Eles pintavam o chão, estavam presentes nas paredes e faziam parte da estrutura do fogão a lenha no qual minha avó cozinhava.Muitas vezes, me pego lembrando de fatos da infância e de minha criação, de quando era bem pequena. Eu me surpreendo com tantas coisas que ficaram guardadas sem eu saber exatamente como elas seriam tão importantes e constituidoras de quem sou agora, tanto tempo depois. Memórias que eu construí e que, ao mesmo tempo, até hoje me constroem, e nelas mergulho para cultivar, cuidar, colher e recolher os frutos e flores plantados em mim.A ancestralidade não é algo que ficou no passado, mas se faz presente o tempo todo ao longo de nossas vidas. Depois dos 40 anos de idade, eu viajo para a África, onde está o começo da minha história ancestral, e isso traz à tona os tempos da minha infância. O barro me traz as memórias da terra pisada, da terra sofrida do povo negro, das travessias e dos artefatos cerâmicos que vieram de um lugar do outro lado do Atlântico, onde a barraria é algo muito sagrado. O barro conta sobre minha existência.Sou filha do Paulo e da Neusa – nossa Iaiá, já em memória, mãe de seis filhos –, e fui criada dentro do terreiro. Quando crescemos nesse lugar, participamos de tudo, vemos as festividades, comemos as comidas e inventamos nosso lugar de brincar. Nunca tive outra vivência e outra religião que não fossem as de terreiro. Em determinado momento da vida, minha mãe se consagrou no Candomblé, mas toda a minha família tem como raiz a Umbanda, passando pela minha avó e minha bisavó. Todo o aprendizado que tive nessa vida veio delas.Minha criação foi baseada na simplicidade e no ensinamento dessas mulheres que mal sabiam escrever os próprios nomes, mas que tinham uma audição melhor do que qualquer um. Hoje eu também sei escutar e, às vezes, me assusto porque eu sempre escuto aquilo que elas falam comigo, mesmo não estando mais aqui neste mundo. Eu me arrepio, fico gelada, porque sei que elas estão trazendo para mim as informações que eu passo para as outras pessoas. Por isso eu digo: a sabedoria que eu tenho hoje é das minhas ancestrais, até porque eu não pesquiso nada e nem vejo nada. Eu deixo que elas respondam por mim e, enquanto falo, vou aprendendo junto.Eu sempre fiquei muito atenta a tudo que via e escutava. Fico sentada no terreiro apenas absorvendo as informações que meus ancestrais, os Orixás, os Exús e os Caboclos me trazem, porque nós não sabemos nada, quem sabe são eles. A sabedoria é ancestral, e saber disso me constitui como mulher preta, gestora cultural e escritora. Hoje, eu me vejo fazendo coisas que no meu estado normal de vida eu não estaria fazendo, mas sou impulsionada a fazer. Sou filha de Xangô, que me empresta este corpo para que ele possa habitar em mim, me fazendo ser quem eu sou. Eu não seria esta pessoa se não fosse Xangô, as minhas ancestrais, as minhas matriarcas e a minha Ialorixá – minha mãe de santo –, que me consagraram e estão em volta de mim. Eu seria apenas uma simples mortal dentro de São Gonçalo, cidade, no Rio de Janeiro, onde nasci, fui criada e moro até hoje.E não é possível falar de ancestralidade, de Orixás e do Candomblé sem falar da natureza. Os Orixás estão ligados aos elementos da natureza, e falar deles é falar do ar, do vento, do sol, das fases da lua, dos quatro elementos, do tempo e das estações do ano. Falar dos Orixás é falar de algo que está no ar: você não vê, mas você sente. Com o barro, não é diferente, já que falar do barro é falar de Nanã, a Orixá da vida e da morte.Nas nossas histórias, Nanã representa o barro, o pântano e as beiradas das lagoas e dos rios onde crescem os matos baixos – elementos que, para o Candomblé, já existiam antes de o mundo ser mundo. Nanã é o início de tudo, é a terra úmida onde as sementes germinam, é aquela que forneceu a matéria presente na criação dos primeiros seres vivos a povoarem a Terra. Segundo nossas narrativas, Olorum, o senhor dos céus, incumbiu Oxalá com a tarefa de criar os seres humanos. Ele tentou dar forma a eles com o vento, com a madeira, com a pedra, com o fogo e com o azeite, mas nenhum material era propício à criação. Nanã, então, deu a Oxalá um pouco de barro do fundo do lago em que morava e, com esse material, ele conseguiu dar forma aos seres humanos. Como Nanã é uma Orixá muito melindrosa, ela pediu a Oxalá que lhe desse de volta aquilo que pertencia a ela, exigindo que, quando os seres humanos morressem, fossem devolvidos ao barro de onde vieram.É por isso que, quando alguém está entre a vida e a morte, nós pedimos a Nanã e a seus filhos – Ossãe, Obaluaê e Ewá – para intercederem sobre a saúde da pessoa. Obaluaê é o Orixá da saúde e o dono da terra. A mãe, então, é a morte, e o filho é a saúde. Nanã é uma senhora de sabedoria pela qual temos que ter muito respeito, pois o barro é energia e representa a própria vida. Tudo que fazemos é à base de barro, desde as paredes das casas até o forno no qual cozinhamos.Mas, acima de tudo, o barro é o lugar onde pisamos, ele está embaixo dos nossos pés o tempo inteiro. Por esse motivo, é preciso pisar no chão com cuidado e sempre alimentar a terra, principalmente antes de caminhar por um lugar desconhecido. Antes de andarmos por um novo território, nós precisamos preparar um ebó, ou uma oferenda, e jogá-lo na terra. Quando matamos uma galinha, o primeiro sangue tem que cair na terra. Quando fazemos o Amalá, que é uma comida ritual oferecida a Xangô, não podemos jogá-lo fora, e, sim, enterrá-lo para que a terra fique satisfeita.A terra precisa ser alimentada o tempo todo porque ela é sagrada e tem poder. Ela está em todos os lugares e devemos obediência a ela. É uma questão espiritual e ancestral: se você não estiver com os pés fincados na terra, não adianta buscar forças para realizar o que quer que seja. É da terra que viemos e é para ela que voltaremos. Sua alma pode até ir para o céu, mas é a terra que verdadeiramente nos alimenta e recebe nosso corpo depois que partimos deste mundo. Nós nos alimentamos pela terra, porque é ela que envolve o barro, a lama, o pântano e a beirada da lagoa, onde se planta e de onde se tira a tabatinga – barro que os ceramistas usam para fazer sua arte e que nós usamos para os assentamentos de santo, que são conjuntos de objetos que contêm a força espiritual dos Orixás.Bem próximo do terreiro, tem um lago onde pegamos a tabatinga. Nós levamos enxadas e colheres de pedreiro para retirá-la da beira do lago, porque é uma tarefa muito difícil. Não é porque o barro está dentro da água que ele é mole e fácil de retirar. Pelo contrário, pois ele vem com uma junção de calcário e outros elementos. Para pegar a tabatinga, é necessário todo um preparo. A Ialorixá precisa ir até a beira do lago e fazer um agradecimento a Logun Edé, a Mãe Nanã e a Mãe Oxum antes de extrair o barro. Não é chegar “na mão grande” e tirar o barro, indiscriminadamente, senão é lá mesmo que você fica. Depois de tirar uma sacaria de tabatinga, nós levamos para o terreiro, deixamos descansar de um dia para outro e, em seguida, a batemos com outros elementos, como o dendê, o mel, o vinho, o waji, o ossum, a pimenta da costa, a pimenta malagueta e o enxofre. Essa etapa demora cerca de três dias, e batemos tanto que ficamos com o braço doendo. Mas é um processo lindo, porque as transformações da forma da tabatinga enquanto a preparamos para os assentamentos de santo nos dizem muito sobre as transformações da nossa vida. A riqueza que a ancestralidade e a natureza nos proporcionam nenhum dinheiro é capaz de pagar. Está tudo aqui em volta de nós, e de qualquer lugar a que nos propomos a ir.Sou muito grata a Exú e a Xangô, por me levarem a lugares inimagináveis fora do terreiro, e, assim, eu possa dizer: “Eu estive nesses lugares, eu aprendi com esses lugares”. O aprendizado ancestral é, claro, maravilhoso, mas, se não sairmos e praticarmos, não chegamos a lugar algum. O terreiro é lindo e eu o amo muito, mas também amo aquilo que Xangô tem me mostrado mundo afora. Eu não quero ser uma mãe de santo que aprendeu as coisas nos livros, quero continuar aprendendo na prática. O mundo inteiro é nosso hábitat: se eu quiser ir para a cidade, eu vou; se eu quiser ir para uma floresta, eu vou; se eu quiser ir para o campo, eu vou. Tenho várias vertentes para pisar na terra e estar junto dela, em qualquer lugar que eu vá. Muita gente se esquece, mas a terra faz parte de tudo que nos rodeia.Quando se fala da natureza, a maior parte das pessoas pensa nas plantas. Mas, para a planta estar de pé, a terra deve ser cuidada, o barro precisa ser preservado. Minha ancestralidade me ensina todos os dias que a natureza não é só a planta, mas o contexto inteiro. (Continua...) _ NARRAÇÃO MARÉ DISSIDENTE ACESSIBILIDADE CRIATIVA Narração: Gabi Martins