
Não quero mais. Cansei de dizer que a gente é muito diferente. Cansei de dizer, experimentei o silêncio para te escutar melhor. Perceber fragmentos de você que me afetam. Muitas partes de você me atingem. Também tem o fato de você ser essa figura materna tão presente no meu desenvolvimento. Estamos ligadas desde o umbigo. Acredito que a força da natureza é imbatível, você revela a sua força e eu ainda fico perplexa. De pé ainda que a tempestade arranque o chão. Esse ano o frio está intenso, o tempo violento. Alguns tormentos dentro da cabeça, do peito, talvez. Começo a sacar nossa semelhança. Eu, criança, quis roubar o seu lugar. Queria ser igual a você. Levei alguns anos para entender que cada gente era diferente, mas/por isso estamos envolvidos com o outro. Nas diferenças e semelhanças. Eu, adolescente, quis frisar que nossos opostos se completavam. Ingênua. Amor de mãe não é amor que completa ou - apenas - que transborda. Nosso amor transcende. Você soube ler meu choro, e eu aprendi a te escutar quando as palavras foram restringidas. Te vejo mais calada, e considero que pelo menos ainda posso te ver. Mesmo que em alguns dias pareça não existir espaço nesse mundo para mim. Mesmo que eu não consiga voltar para o seu útero. Me vejo em você.