![[Sem Fio] Diálogos sobre a Série Napolitana – Elena Ferrante](https://chadascincocomliteratura.com/wp-content/uploads/2021/03/imagem-1.png)
Olá pessoal! O texto de hoje é a primeira do projeto/parceria do Chá da Cinco com Literatura com o Biblioconto, da Olivia! Sem Fio nasceu das nossas conversas sobre livros, e de tempos em tempos vamos postando o que a gente conseguir escrever sobre esses bate-papos! Nosso primeiro diálogo é sobre a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, em que discutimos o quanto as vidas das pessoas se entrecruzam, podem ser semelhantes; as vicissitudes e dificuldades; os relacionamentos e suas problemáticas! 20/03 O: Aqui, se você estiver procurando um trem pra ler na sua viagem: leia Elena Ferrante. Estou obcecada. L: Vou ler mesmo! Vi inclusive hoje na [livraria] Leitura vários dela. Mas qual exatamente você indica? Porque prefiro ler um bom que alguém já tenha lido do que arriscar. O: Eu tô lendo a série napolitana. Ia ler devagar, mas terminei o primeiro e tive que emendar no segundo! Nossa, é uma história muito esquisita, mas boa. Dá raiva de todo mundo. L: Nossa… vou ler! Mas dá raiva como? O mal vence no final? O: Não teve final ainda! São 4 livros ao todo, estou no segundo. É que todos os personagens são horríveis. E é coisa real, não é fantasia nem nada, é história de vida. Nossa, muito bom. Por uma coincidência gigante Belísia me mandou mensagem agora justamente perguntando desse livro, vou passar pra ela. L: Nossa, que coincidência! Vou botar na lista! 17/04 L: Mas então, sobre o livro, gostei! Fui lendo sem parar, acordei 05h da manhã num dia aí e fiquei sem dormir, li metade do segundo livro já. O: Que bom. A Belísia está lendo? Emprestei para ela. L: Ela já leu o primeiro. O: Ele é muito fluido. Ah ela leu! Gostou? L: Ela achou mais ou menos, acha que não é daquele jeito. O: Como assim? L: E para mim, a vida é justamente daquele jeito, as pessoas as amizades, consegui ir identificando. O: Sim, e a pobreza né? A violência… Lembrei de Quarto de Despejo [da Carolina Maria de Jesus]. L: Da para enxergar Nápoles. Estou no segundo mas achando a Lila chata, eu entendo ela competir. Coitada, sem nenhuma oportunidade e a outra com oportunidade e não quer… Ou seja, a vida… Aqueles que têm invejam as qualidades dos outros que não têm. E o dinheiro como forma de sair dessa vida… O: Isso…Eu vou e volto com a Lila. Tem horas que tenho pena, mas ela faz umas coisas… Mas a Lenu também… L: Quando ela ia sempre na frente correndo para ler e ensinar a outra, estava óbvio que ela fazia de propósito, mas quando a Lenu lê os cadernos só confirma né… Me deu fadiga dela [da Lila], mas ao mesmo tempo é isso, coitada, família super pobre, sem perspectiva, e ela tentando se virar. E compreensível…. Aquela história, ninguém é cem por cento mal, nem bom. O: E como a família usou ela, naquele casamento…fui ficando com ódio do Rino. L: Isso! Até onde li ainda não sei, mas achei que o Marcelo gosta mesmo dela, porque quando teve o lance violento entre os dois [cena do bracelete da Lenu] pensei “ixi, isso vai do ódio ao amor”. Aí agora ela está voltando a falar com ele, mas acho que para encher o saco do Stefano. O: Ah sim…Mas as vidas dessas pessoas ainda vão mudar demais. L: Não me conte. O: Você está em que parte do segundo? L: Ela perdeu a aposta com a Lenu sobre a foto dela na loja de sapato. Mas aqui, eu gosto do Nino, Belísia detesta ele! Eu gosto dele e quando ela fala “esse é o tipo de pessoa que eu queria passar meus dias conversando”, pensei que o pior é que a gente pensa isso mesmo. O: Eu ODEIO o Nino. Esquerdomacho. L: Ele é faficheiro de Nápoles! Hahahahah! Mas se não aparecer algum outro, poderia ser ele. Ou o que todo mundo fala que é gay, que falou que casaria com ela…o Alfonso. O: A Lenu também é super egoísta, não presta atenção. As pessoas querendo falar ao redor dela e ela nem tchum. L: Sim, ela tem obsessão com a amiga, coitada. Não vive a própria vida. Ok que eles ainda são adolescentes, mas isso muda quando a gente fica velha… Ela só tem 17 anos. O: Isso, na hora que ela fica obcecada com os sapatos, ou! É doentio. L: Pois é, ao mesmo tempo é triste porque isso é real, tem amizades assim mesmo… A pessoa quer viver a vida da outra. O: Acho que não nesse grau, será? L: Quando jovens? Total. O: É, jovens pode ser. Eu comecei odiando todo mundo no livro, mas depois fui me vendo em algumas coisas também, inclusive na Lenu. L: Por isso acho totalmente possível esses apegos, essas coisas passionais entre amigos. O problema é quando a pessoa cresce, não amadurece e continua assim. O: Eu acho que em algum grau acontece o que tem nesses livros, mas reduzido. L: Entendi! O terceiro eu leio quando voltar para casa. O: Ah tá, são livros muito fluidos. Não acontece muita coisa mas acontece tudo! 02/05 L: Você está aí? Estou aqui no ônibus indo para Campinas, terminando o terceiro livro. Estou devorando, muito bom o livro ser a vida deles todos! Me lembra um filme italiano de quase três horas que é isso, mostra a vida deles todos, desde jovens até velhotos. Passam pelos ataques dos antifascistas, enchente em Florença, um era super liberal virou um fascistão, está me lembrando muito, é o “La meglio gioventù / The best of Youth”, até cheguei a pegar a trilha sonora. O: Então, o terceiro é muito a saga de quase toda mulher da esquerda acadêmica, né? É impressionante como são discussões que a gente vê neste momento. E o Nino MEGA esquerdomacho, gente! Eu também achei legal demais essa história ser a história do grupo todo. Meu coração sente pelo Pasquale. L: Achei bom o terceiro livro, eles tão jovens e já tendo filhos… Nino é o mais ultra esquerdomacho, nossa! Folgado! O: Já comecei o quarto livro. L: Não me conte. O: Hahahaha! Vou contar não! L: Eu não li os livros, eu os engoli, nossa! Assim, eu gostava mais da Lila, agora estou meio de saco cheio, competição o resto da vida… Cresçam, meninas! A Lenu também, carente sempre querendo reconhecimento de todo mundo. Acho legal essa coisa de ela sair do bairro, mas isso nunca sair da vida dela, porque não tem jeito mesmo, é parte da história. O: Isso. Nem dá para saber o quanto da Lila é isso mesmo e o quanto não é a Lenu. L: Agora, fiquei com ódio dela abandonar as meninas por causa do Nino. O: Sim, ela é egoísta demais, só pensa em si mesma! L: Que nem quando ela vai visitar a professora Galiani e a Lila diz que Lenu tem vergonha dela mas em tom de brincadeira. Aquelas brincandeiras que no fundo a pessoa pensou isso mesmo…é complicado! Mas eu acho que o livro é bom por isso, é real. O: Pois é, o que ela fala do mundo intelectual mesmo e como ela age. É bem isso, usar as palavras certas, seguir a cartilha. E não importa o que você pensa de verdade, se você tem dúvidas. L: Nossa! Igual o Nino sempre competindo com ela. Agora, o que você falou do Pasquale, acho que em outro tempo eu também ia ficar assim, mas estou tão impregnada dessa coisa do esquerdomacho que estou com fadiga dele e mais ainda da namorada dele, que eu também fiquei com dó, mas não tenho paciência. O: Eu fico com dó porque acho ele muito usado. Nessas lutas da esquerda que ela relata, ele é o único trabalhador mesmo, o cara que vem de baixo. O resto é intelectual, filhos de gente bem de vida… E quem sobra é o Pasquale. L: Isso. E o Enzo também, coitado. Mas a Lenu, não, também veio de família pobre e enfim, com os esforços e sofrimento ela saiu. Não é todo mundo! Eu gosto do Enzo por isso, ele continuou estudando sozinho, naquela vida horrível e ainda sim, ele conseguiu. O: A Lenu vive com medo de que reconheçam nela a origem, e vira e mexe usam isso contra ela mesmo. Também gosto do Enzo. L: E o Marcelo com a irmã da Lenu? Eu até gostava dele, mas nossa…Ainda tem a história do estupro, né. Quando eles são jovenzinhos e puxam a menina para dentro do carro, acho que foi a Gigliola. São uns nojentos, não tem jeito… Acho que a Lila vai ceder em algum momento. O: Acho que é aquele negocio né, da mulher se sentir na obrigação… L: A violência ali tão normal. Quando a Lila apanha do Stefano, as outras mulheres tipo “é assim mesmo, você se acostuma”. O: Nossa, nessa época do casamento dela com o Stefano me deu ódio… e do Rino também, culpando ela de tudo, depois de tê-la usado tanto. L: Nossa, família horrivel! E o Franco? Era outro esquerdomacho na vida da Lenu né? Aquilo ali ficou tão humanas… O: Fico pensando se naquela época era possível não ser esquerdomacho, mas apenas variar o grau. O Franco a pegou para moldá-la né, mas ele também era jovem ali. L: Exato. No pior cenário, que bom que foi ele, poderia ter sido um abusador, uma coisa pior. O: E o Pietro? L: Estou com raiva dele. Primeiro eu tinha dó, mas agora raiva. O: Acho muito legal quando a Lenu fala de como ele bateu nela, porque ele bate e aí se dá conta, do tipo não adianta você ter estudado, família tradicional, esquerda, na oportunidade vai usar da violência. L: Isso! E depois a filha dela imitando isso né? É tenso ela se dando conta de como o ciclo continua…E assim, o argumento “olha o que você me fez fazer?”! Ainda hoje se ouve isso. E o sexo? Minha nossa, pela descrição me pareceu que estavam enfiando um cabo de vassoura nela, horrendo! E acho que ele também rivaliza com ela, na coisa de ser intelectual. O: Até onde entendi, ela só sentiu prazer com o Nino… E acho que ela é obcecada pelo Nino. L: É, tanto que desculpa ele em um monte de coisas. Mas acho que vai se cansar dela, como se cansa de todas…Eu imagino ele lindo! Hahahhaahah! O: Hahahahahah! Eu nem consigo imaginar ele lindo, apesar da Lenu falar isso. L: Ele me parece o XXX [nome omitido pra preservar ozôto], fisicamente ele é o Nino para mim. O: O Pasquale eu imagino como o ator de uma série que eu assisto, não é bonito, mas gente boa demais. É um personagem de Lark Rise to Candleford. Um cara do campo sabe, simples… O cara é feio, mas eu imagino o Pasquale bonito… Eu não sei, eu curto o Pasquale. L: Coitado, vida duríssima. Falando nisso, e aquele emprego da Lila na fabrica de salsicha? Que coisa medonha! Imagina os abusos que os operários não sofriam (e sofrem)… Tudo muito duro, animalizado, nossa! E o irmão do Nino? Casado, e o Michelle quem engravida a esposa dele… Imagina, homossexual ali, naquele bairro? O: Ou, e ele tentou contar varias vezes para Lenu, e ela super egoísta, preocupada consigo mesma. Aqui, Lila e Enzo: você acha que um dia ela vai sentir prazer? Porque até agora ela só foi estuprada, constantemente. Deve ser um trauma gigante L: Com o Nino ela disse que se entregava de verdade, não foi não? O: Mas que não sentia prazer, sentia? L: Agora não lembro O: O Nino que disse isso né, ele contou para Lenu. 14/05 O: Terminei, tô triste L: Triste por que acabou ou do jeito que acabou ? O: Triste porque acabou e porque a história é muito triste. Eu fiquei meio mal mesmo. Pensando na vida, sabe. As filhas rindo das coisas que ela escreveu, a gente... O post [Sem Fio] Diálogos sobre a Série Napolitana – Elena Ferrante apareceu primeiro em Chá das Cinco Com Literatura.