
O Museu de História Natural de Paris organiza uma exposição para celebrar os seus 400 anos em que estão expostas obras de mais de 120 artistas. Estes artistas frequentaram o museu, inspiraram-se nas plantas e animais que aí viram e produziram obras tendo como ponto de partida este museu nos últimos séculos e são agora expostos para alertar para os perigos da extinção e das alterações climáticas. Em 1626, o rei Luís XIII, muito interessado pela botânica, cria um jardim real dedicado ao cultivo e estudo das plantas medicinais à proximidade do Palácio do Louvre, então residência oficial dos monarcas franceses. 400 anos depois estes jardins são ainda hoje conhecidos como o Jardim das Plantas, mas deram lugar ao Museu de História Natural de Paris que têm como principal função abrigar, expor e descodificar as ciências humanas, dos animais, das plantas ou a geologia para cientistas e visitantes. Para celebrar os quatro séculos de história, o Museu, ou Museum como é conhecido em França, decidiu levar a cabo uma exposição intitulado “Artistes aux Museum”, dando destaque para todos os pintores, desenhistas e escultores que se inspiraram no Museu para levar a cabo as suas obras, mas também os próprios cientistas, muitos deles com excepcionais capacidades de desenho. Uma parceria mais estreita do que imaginamos à partida, como explicou Alice Lemaire, comissária geral da exposição e directora das Bibliotecas e da Documentação do Museu de História Natural de Paris, em entrevista à RFI. “O diálogo entre Arte e Ciência sempre esteve muito presente na instituição, pois não é possível estudar ciências naturais sem uma representação artística. Precisamos de desenhos para conhecer as plantas e os animais, para poder descrevê-los, compará-los, identificá-los e dar-lhes nomes. Então, esse vínculo é, sem dúvida, muito forte. E essa riqueza também é uma fonte de inspiração para artistas que vêm por conta própria, para utilizar o acervo do Museu na sua própria prática artística e na sua própria inspiração”, explicou. Assim, os jardins foram acolhendo ao longo dos anos todos os documentos vindos de inúmeras expedições realizadas em várias latitudes, ao mesmo tempo que as competências científicas do Museu, criado formalmente em 1793, foram crescendo, incluindo a criação da Menagerie, o segundo jardim zoológico mais antigo do Mundo. Logo a partir do século XVII, o desenho mostrou-se muito importante no avanço das ciências, nomeadamente realizado em pergaminho de pele de cordeiro. Esta exposição permite pela primeira vez aos visitantes ver alguns originais destes desenhos, que devido à sua fragilidade raramente são mostrados ao grande público. Para esta exposição, foram criados três novos desenhos, mostrando ainda a sua utilidade, como lembra Alice Lemaire. “Precisamos de representações para fazer ciência, mas também, posteriormente, para a divulgar. Numa época em que o desenho era a única maneira — tendo mais tarde evoluído para gravura — de divulgar todas essas descobertas. É claro que, posteriormente, a fotografia também desempenhou esse papel, mas nunca substituiu o desenho. Porque o desenho traz a possibilidade de mostrar mais detalhes. Parece contraditório, mas, na verdade, num desenho, é possível representar todas as características de uma espécie. Enquanto que, numa foto, vem um único indivíduo num determinado ambiente”, indicou. O desenho era algo tão essencial para a ciência, que o próprio museu dava aulas de desenho científico, tendo passado pelos seus bancos artistas como Auguste Rodin, Henri Matisse ou Marie de Laurencin. Mais de 120 artistas estão presentes nesta exposição, como Eugène Delacroix que vinha observar os animais à menagerie para os desenhar melhor e esteve mesmo presente na dissecação de um dos leões desse zoo. No entanto, não só de artistas muito conhecidos conta esta exposição que traz à luz, pela primeira vez, mulheres cientistas e desenhistas, assim como homens e mulheres nativos que trabalharam em expedições lideradas por franceses durante o período colonial. “O nosso objectivo era realmente estudar a trajectória dos artistas e destacar pessoas que não receberam o devido reconhecimento durante a sua vida. Essa é, na verdade, a questão: a fronteira um tanto ténue entre arte e desenho científico. Muitos desenhistas científicos, homens ou mulheres, eram considerados técnicos, quando, obviamente, são artistas. E há o paradoxo de ter pessoas muito famosas que se inspiraram na coleção do Museu, como Delacroix, Antoine Louis Barye, Emmanuel Frémiet. Alguns eram mesmo professores de desenho no Museu como Pierre-Joseph Redouté ou Emmanuel Frémiet. Mas muitas pessoas trabalharam nos bastidores dos laboratórios, nos territórios coloniais, cujos talentos foram aproveitados sem que necessariamente lhes fosse dado o devido reconhecimento. Portanto, o objectivo da exposição é dar destaque a todas essas pessoas. Muitas mulheres trabalharam na ilustração da flora, por exemplo em Madagascar. E não estamos só a falar de mulheres, muitas pessoas foram invisibilizadas por serem consideradas simples técnicos ou por trabalharem num contexto colonial”, descreveu. O Museu de História Natural de Paris acolhe a maior colecção de espécimes ao Mundo, são 77 milhões, entre fósseis, ossadas, animais embalsamados ou conservados em formol. Mas também uma das maiores bibliotecas de ciências naturais do Mundo, com dois milhões de documentos e obras, incluindo obras artísticas. Por exemplo, François Pompom, pai da escultura de urso polar mais conhecida do Mundo, legou todo o seu atelier, incluindo as obras que ainda estavam na sua posse, a este museu já que sentia que lhe devia todo o interesse e conhecimento que tinha pelos animais. Um trabalho de grande envergadura e responsabilidade para construir um futuro melhor como explica Alice Lemaire. “É claro que é um património único no mundo, mas eu diria mesmo único para a humanidade em geral. Trata-se de uma contribuição, mesmo hoje em dia, para as descobertas e para o avanço da ciência. A biblioteca do Museu é uma das mais ricas do mundo no que diz respeito à história natural, ela possui um acervo iconográfico artístico extremamente vasto devido a essa forte ligação entre arte e ciência; e, portanto, o facto de ser absolutamente indispensável recorrer à prática artística para construir o conhecimento naturalista contribui para que as nossas colecções sejam tão ricas. Em termos de iconografia, temos tantas peças quanto um museu de arte. É um trabalho a tempo inteiro para uma vasta equipa que preserva tudo isto, que adquire porque continuamos a enriquecer as colecções com doações e aquisições, a fim de reflectir toda essa vitalidade e a riqueza dessa ligação entre arte e ciência. E essa colecção não tem apenas um valor patrimonial, mas também desempenha um papel importante na consciencialização das gerações que virão. Trata-se de um arquivo, um arquivo da vida na Terra e um recurso para alertar sobre a perda da biodiversidade e o impacto das mudanças climáticas. Alguns dos nossos desenhos retratam espécies que estão extintas. Logo, não se trata apenas de uma colecção muito rica de museu, mas também de uma ferramenta para as futuras gerações e para os desafios que enfrentamos hoje”, concluiu. A exposição “Artistes Au Museum” está patente até dia 7 de Março no Museu de História Natural de Paris.