
Olá! Como vai você? Espero que bem! Hoje, precisamos falar sobre meias-verdades e pequenas mentiras, e como, ainda que nem percebamos na maioria das vezes, essas mentirinhas de boa fé podem ser mais comprometedoras do que imaginamos. Esses dias lia um interessante artigo do Psypost, um site independente de notícias científicas dedicado a relatar as pesquisas mais recentes sobre comportamento humano, cognição e sociedade. O título era: Ser enganado por seus pais na infância prevê desafios sociais na idade adulta. O artigo apresentava os dados de um estudo de Peipei Setoh, Chefe do Departamento de Psicologia na Universidade Tecnológica de Nanyang, Singapura (NTU). Peipei afirmou que seu interesse em pesquisar se as mentiras parentais na infância estavam associadas a resultados negativos de desenvolvimento na idade adulta, nasceu por saber que essa é uma prática amplamente observada em todas as culturas, mas, poucos estudos examinaram suas associações com resultados psicológicos na idade adulta. Claro que ao ver algo assim, logo imaginei que se tratasse de mentiras pesadas, traições ou omissões severas! Mas, não! O que eles estavam buscando era saber qual o impacto a longo prazo daquelas pequenas mentirinhas do dia a dia, relacionadas a comer; sair e/ou ficar; mau comportamento das crianças; e gastar dinheiro. Tipo: “Se você não vier comigo agora, vou deixá-lo aqui sozinho” ou, “Eu não trouxe dinheiro comigo hoje, podemos voltar outro dia”, ou “Cuidado, a polícia vai te pegar”. Isso me deixou ainda mais curiosa! Afinal, quem nunca ouviu uma mentirinha dessas? Mesmo que em tom de brincadeira. INTRODUÇÃO Logo de cara, a primeira frase do texto de introdução do estudo já é um convite a repensarmos o valor que a verdade tem ocupado no nosso cotidiano e, que muitas vezes não validamos ao nos acostumarmos a viver em uma sociedade cada vez mais relativista. O texto diz: A honestidade é um imperativo moral nas sociedades humanas. As atitudes e comportamentos dos pais, no entanto, estão em desacordo entre si. Os pais muitas vezes enfatizam a importância da honestidade ao socializar seus filhos (Heyman, Luu, & Lee, 2009), mas os pais em todo o mundo mentem para seus filhos para obter a conformidade ( …no âmbito social, comportamental) (Heyman, Hsu, Fu, & Lee, 2013). O comportamento de mentir dos pais que visa provocar a conformidade das crianças tem sido frequentemente referido como parentalidade por mentira (Heyman et al., 2013). E o texto segue, dizendo: O papel que a parentalidade por mentira desempenha no desenvolvimento sociomoral das crianças não é totalmente claro. Ou seja, quais são as ligações entre a parentalidade por mentira, o comportamento de mentira das crianças e os resultados psicossociais subsequentes das crianças? E mais à frente, complementa: Na primeira infância, as crianças frequentemente observam os comportamentos de seus pais e provavelmente usam essas observações para inferir quais comportamentos são normativos (Bandura, 1969). A partir de uma estrutura de socialização dos pais, a paternidade mentindo pode promover o comportamento de mentir nas crianças porque os pais modelam comportamentos mentirosos que seus filhos podem imitar. Nada como o exemplo, não é verdade? E é aí que entra em cena a construção da confiabilidade entre pais e filhos e seus desdobramentos. O estudo informa: Especificamente, é possível que a exposição repetida à mentira dos pais corroa a confiança dentro das relações interpessoais (Michaelson e Munakata, 2016, Yi et al., 2014). Se as crianças aprendem que seus pais não são confiáveis, as crianças podem ser menos confiantes nos relacionamentos (Yi et al., 2014). … Além disso, crianças que observam a paternidade mentindo podem estar inadvertidamente aprendendo maneiras ineficazes de lidar com situações difíceis e lidar com conflitos interpessoais. Especificamente, ao observar a prática de mentir dos pais, as crianças podem tomar consciência de sua eficácia em induzir a adesão comportamental dos outros (Heyman et al., 2013). Uau!! Quanto mais eu seguia na leitura, mais refletia sobre como pequenas mentiras são capazes de gerar tantos desmantelos. O mais interessante é que quando lembramos de nossos pais nos “enganando”, ainda que de brincadeira, ainda que nos gerando memórias que parecem divertidas, nem de longe nos passa pela cabeça como a mentira tem um poder tão grande de influenciar, de modo até imperceptível, a nossa relação com a verdade ao longo da vida. PENSANDO NISSO… Lembrei do dia que decidi que não queria mais mentir. E olha que eu não me considerava uma mentirosa, mas, assim como a imensa maioria das pessoas, era adepta daquelas pequenas mentirinhas do dia a dia. Opaaa! Seria isso um legado cultural? Até creio que sim. Afinal, é tão parte da nossa cultura social dizermos coisas como: “To chegando” - sem nem ter saído de casa. “Fala que eu não tô” - quando não queremos ter que atender alguém. Mas eis que, ao ligar meu alerta contra a mentira, encontrei camadas dela em mim. Comecei a perceber como as mentirinhas que consideramos inofensivas são ervas daninhas, escondidas nos papos cotidianos, quando dizemos: “Acredito em você” ou um simples “tem razão…” - mesmo não acreditando ou discordando, mas sem querer desagradar o outro. E as meias-verdades? Essas são persuasivas demais! Descobri como usava - muito mais do que eu imaginava - parte da verdade para convencer alguém a fazer algo ou a me favorecer. Mas, a pior descoberta mesmo, foi ver como em alguns casos era muito, muito tentador criar uma narrativa para usar a própria verdade, palavra por palavra, de maneira manipuladora. Um exemplo: Eu estava com dor de cabeça - verdade! Mas atrasei porque perdi a hora de bobeira - não porque a dor de cabeça fosse forte o suficiente para me derrubar. Então, eu podia dizer: Perdão pelo meu atraso, mas hoje eu amanheci com uma dor de cabeça tão chata que nem percebi que perdi a hora. Percebe? Nesse caso ainda agregamos o bônus da pena! Normalmente, cremos que isso não é um problema. Mas a verdade é que quando a mentirinha faz parte da nossa vida, ela se torna um hábito. E esse hábito, que supomos inofensivo, pode sim, gerar impactos de longo prazo na vida de quem nos cerca. VAMOS AOS RESULTADOS Segundo consta no artigo da PsyPost: Os participantes que relataram ter sido enganados mais quando crianças eram mais propensos a relatar mentiras para seus pais na idade adulta. Eles também disseram que enfrentaram maiores dificuldades em enfrentar desafios psicológicos e sociais. Os pesquisadores também descobriram que ser enganado pelos pais estava associado a dificuldades de ajuste, como perturbação, problemas de conduta, experiência de culpa e vergonha, bem como egoísmo e traços manipuladores. E a autora do estudo ressaltou: “As mentiras que estudamos foram mentiras parentais contadas para manipular as emoções ou o comportamento das crianças. A implicação do estudo é que os pais podem considerar alternativas à mentira. Como pais, nosso objetivo é construir um relacionamento de confiança e positivo com nossos filhos. Podemos fazer isso reconhecendo os sentimentos das crianças e fornecendo-lhes informações precisas para que possam resolver o problema por conta própria. Isso ajuda o desenvolvimento de suas habilidades de raciocínio e regulação emocional.” O estudo, “Parenting by lying in childhood is associated with negative development outcomes in adulthood“, foi escrito por Peipei Setoh, Siqi Zhao, Rachel Santos, Gail D. Heyman e Kang Lee. Um outro estudo interessante, Mentir dos pais para as crianças: Uma revisão sistemática, de Emma C. A. Roza e seus parceiros, corrobora essa mesma visão. MAS, ATENÇÃO! Para cada faixa etária infantil e infanto-juvenil é preciso saber colocar a verdade em cena de forma compreensível e construtiva. A verdade nunca deve ser usada de forma manipuladora ou prejudicial. Afinal, não basta desejar que nossos filhos desenvolvam valores que admiramos. Nós precisamos examinar se as nossas próprias atitudes estão oferecendo … Get full access to Clube Orekare at clubeorekare.substack.com/subscribe