
Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari revisita o mito de Medéia, a mulher traída que assassina os próprios filhos. No Brasil, em 1975, durante a ditadura militar e sob a censura imposta pelo AI-5, Chico Buarque e Paulo Pontes trouxeram uma releitura contundente com “Gota d’água”, transpondo o mito para a realidade de um subúrbio carioca marcado por repressão, desigualdade e medo. Como eco desse contexto, a obra incorpora versos emblemáticos: “Quero lançar um grito desumano/ Que é uma maneira de ser escutado”. Na adaptação brasileira, Medéia se transforma em Joana, mulher que dedicou a vida a Jasão, um sambista a quem ajudou a formar como homem e artista. Em ascensão graças à música “Gota d’água”, ele abandona Joana para se casar com a filha de seu produtor, também proprietário do conjunto habitacional onde vivem. Joana, por sua vez, é empurrada à exclusão e à perda, o que a conduz a uma vingança levada às últimas consequências. Décadas depois, a obra retorna aos palcos em “Gota d’água - no tempo”, dirigida e protagonizada por Georgette Fadel, que revisita sua premiada interpretação de Joana. A nova montagem, em cartaz até 3 de maio, no Sesc Consolação, reafirma a atualidade dos temas abordados: desigualdade social, individualismo crescente e a corrosão dos valores sob a lógica do capital. Com elenco ampliado, banda ao vivo e a presença de Cristiano Tomiossi retomando o papel de Jasão, o espetáculo permanece como um retrato incisivo de uma sociedade em que ascensão e sobrevivência frequentemente exigem rupturas morais profundas.