
Milhares de pessoas juntaram-se junto à Assembleia da República em Lisboa, esta terça-feira, pelo direito à habitação. Ouviram-se slogans como “25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais, “A luta continua” e “A cidade é para morar, não é só para trabalhar”. Houve apelos a uma greve geral, críticas à violência policial e ao governo e um ambiente de muita solidariedade popular. Muitos também entoaram: “Queremos paz, pão e o direito à habitação!" A manifestação desta terça-feira foi promovida pela plataforma Casa Para Viver e pelo movimento que organizou a Acampada de Lisboa, no Rossio. Nuno Ramos de Almeida, do plataforma Casa para Viver e membro da organização Vida Justa, explica que “o objectivo da concentração é que caia a nova lei do arrendamento e que haja mais dinheiro para a habitação” quando no Parlamento “está a ser discutido o Orçamento de Estado e vão cortar 1.844 milhões de euros na habitação”. Por outro lado - diz - também se pede que “acabe como única solução de política pública a repressão policial às pessoas que protestam por não haver casas”. Beatriz Figueiredo, estudante de 21 anos e empregada em restauração, levou um cartaz em que se lia: “Hoje assisti ao despejo de alguém. Amanhã quem estará a assistir ao teu?”. Explica que a crise habitacional é um problema que toca a todos e que este grande protesto é “em nome da luta pela dignidade na habitação”. “Estamos todos aqui porque ter uma casa é um direito e todo o ser humano precisa de ter uma casa para viver com dignidade”, resume. Também Alex Fonte, de 31 anos, levou um alertaao Parlamento através de um cartaz em que se lia "Aluga-se um quarto na Ansiedade com vista para o Desespero". Para ela, essa frase "reflecte um bocadinho o que muitos jovens, adultos estão a viver e que tem vindo a aumentar muito a ansiedade por haver pouca perspectiva de futuro". Além disso, lamenta, "as novas leis ainda vão desproteger mais quem está já a viver em dificuldade". Mykyta Kolisnyk, de 24 anos e 'data scientist' levou muitos cartazes para, basicamente, dar conta dos receios dos jovens quanto ao futuro. O jovem conta que "o salário não chega para a vida de um jovem comum para além do básico para sobreviver" e que isso coloca em causa até os planos para criar a sua própria família. Várias vezes a multidão agitou chaves em coro, num gesto simbólico das manifestações pelo direito a um tecto. Sofia Leão, estudante de 20 anos, vive na casa dos pais e admite ter “a sorte de não ter de pagar uma renda”. Foi à manifestação em solidariedade com a maioria dos estudantes que “têm de dividir quartos porque ninguém tem a capacidade de pagar uma renda”. Sara Sebastião também fez questão de estar nesta manifestação para “lutar pelos amigos que não têm uma boa situação de habitação, pelos pais que recebem o ordenado mínimo e têm de pagar uma casa alugada a valores exorbitantes e pelos sobrinhos que são o futuro e que não vão ter futuro se isto continuar assim”. Eugénio Ruivo também levou um cartaz com um cravo impresso e uma camisola que vestia quando era preso político em Caxias durante o Estado Novo. Para ele, o direito à habitação é uma conquista que não se deve deixar cair e foi à manifestação em nome “da luta para que as pessoas tenham uma habitação condigna, da luta para que as pessoas tenham saúde e da luta para que haja uma escola pública”. Também com um cartaz decorado com a enorme escultura de um cravo de Abril e a mensagem “Quando a injustiça é lei, a resistência é dever”, Gil, professor e que esteve anos emigrado em França, resume: “Queremos paz, pão e o direito à habitação! A paz, pão e o direito à habitação. Estamos aqui para lutar contra esta lei dos despejos.” Desde o cair da noite e durante várias horas, a rua em frente do Parlamento português esteve repleta de pessoas munidas de cravos, cartazes e canções de Abril. Houve assembleia popular diante da Assembleia Nacional e vários dos manifestantes chamados a discursar apelaram para a realização de uma greve geral pelo direito à habitação e contra o aumento do custo de vida. As manifestações pelo direito à habitação começaram no Porto a 10 de Outubro, expandiram-se a Lisboa e também já motivaram concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.