
"Algumas vezes no banquete da Vida nos é permitido limpar a boca com batidinhas suaves, e deixar o guardanapo absorver os resíduos da área. Em outros momentos, precisamos enfiar o dedo na garganta e vomitar até a bílis, para não morrermos. Não cabe a ninguém oferecer guardanapo de linho, quando o que alguém precisa é de um pouco de espaço para vomitar em paz. De repente, uma luz acende e ilumina o que deveria ter ficado escondido para sempre. A luz escancara a nossa patética fragilidade; ilumina e revela a impotência e a miséria humanas, sem filtro ou lente colorida. E no instante seguinte, a luz se apaga e a penumbra disfarça os contornos da nossa insignificância. De que adianta apagar a luz? Eu já vi o olhar vazio, o corpo imóvel que ainda respira, o amor e as histórias escorrerem pelas frestas da memória, eu vi um ser humano minguar e esvaziar de tudo aquilo que o tornava humano. Não adianta apagar a Luz, a minha Alma viu. Eu subi ao palco e participei de uma tragédia, cujo autor não me deu opção, sequer permitiu que eu ensaiasse, ou lesse o roteiro; eu conversei com a loucura e joguei com a morte, enquanto ambas se divertiam com meu espanto e pavor. O Alzheimer levou minhas asas e fincou meus pés no lodo da experiência humana. Aquela que fui está enterrada junto com meus pais, ainda não conheço essa mulher que sobreviveu e todos os dias insiste em me falar de esperança, poesia, gratidão... Essa sobrevivente fez um pacto com as vísceras e rompeu com o coração, aos poucos me ensina que tudo pode ser uma bênção, ou uma maldição, depende apenas do ponto de vista. E toda vista tem um ponto de fuga, toda história tem um ponto final, mas o papel e a vida aceitam tudo, basta mudar de linha ou de página, para começar um novo parágrafo e com isso uma nova história. A nova história será escrita com a velha caneta e terá o traço do mesmo autor da história antiga? Como um prédio construído com os escombros do anterior, que desabou por não ter estrutura para aguentar tanta carga? Sim! Não dá para negar o que se viu, não dá para fingir que a vida pode ser uma página em branco, essa página tem rastros de sangue, de suor, saliva, lágrimas... o segredo de recriar é escolher os melhores pedaços do que fomos, abandonar tudo aquilo que não fazia mais sentido e ainda assim, insistíamos em carregar e abençoar. O segredo do novo não é o material intocado, mas o jeito novo de construir com o material que já conhecemos intimamente através das histórias, os segredos, jardins floridos, porões escuros, gargalhada barulhenta e grito sufocado... Esse é o material de que somos feitos, então é com ele que iremos nos curar e recomeçar uma nova história." Míriam Morata - trecho de Alzheimer - Assombro e Cura do Cuidador Narração: Marfiza de França