
O nono número da revista A Luz em Cena propõe um mergulho no universo da criação de imagens cênicas, partindo dos elementos de composição da caracterização — figurino, cabelo e maquiagem — e caminhando em direção a suas relações diretas e indiretas com os demais elementos de composição cênica, em especial cenografia, iluminação e sonoridades. A caracterização, por vezes compreendida como uma função prática e constrita ao campo da técnica, é aqui recuperada a partir de sua constituição histórica, enquanto parte intrínseca à formação e ao fazer do ator, e não como atividade executada por especialistas técnicos de área. Partindo da premissa gestáltica de ser o todo mais que a soma de suas partes, os elementos que compõem uma caracterização cênica são, assim, bem mais que suas execuções técnicas que mesclam tecidos, objetos, produtos e ferramentas e criam figurinos, cabelos e maquiagens para adornar e embelezar atores, bailarinos e performers. Embora a capacitação técnica nestas áreas seja fundamental para que a imagem criada dialogue com o corpo que a sustenta, faz-se importante ressaltar que a técnica não é, aqui, entendida como algo desprovido de fundamentação teórica, procedimentos de pesquisa, historicidade e diálogo com o momento social e político do qual a produção surge e no qual se insere. Neste sentido, pensar a caracterização enquanto um processo mais amplo de construção da imagem, seja ela para personagens e/ou performances variadas, envolve abarcar todo um campo de estudo e aplicação. Estes perpassam tanto a técnica e a prática de cada área específica, como suas fundamentações teóricas que atravessam a história e as áreas do saber, e se entrelaçam ainda com aspectos subjetivos e simbólicos que garantem às imagens criadas um caráter político intrínseco, que não pode ser negligenciado. Pensar a caracterização enquanto projeto de composição de elementos de indumentária, cabelo e maquiagem, envolve, portanto, compreender que ela surge de um processo de construção de pensamento e desenvolvimento teórico-técnico do profissional em questão, e que as imagens criadas para um projeto cênico estão em constante relação e diálogo com as dramaturgias e roteiros, fotografia, direção de arte, cenografia, iluminação, de cada projeto em particular. Conjugar estes elementos mais amplos de projeto cênico aos elementos subjetivos de construção de figuras cênicas e criar uma proposta de visualidade que consiga representá-los, ao mesmo tempo em que dialoga com o público é tarefa árdua. Isso demanda do profissional responsável um conhecimento amplo, atuação em equipe e análise de contexto social e político, para citarmos alguns dos principais aspectos que atravessam o criar, projetar e executar as imagens cênicas através da caracterização. Compreendendo a seriedade e relevância da criação destas imagens, ressaltamos, ainda, a necessidade de reflexão acerca das formações de atores, diretores e técnicos de área, explorando as possibilidades e deficiências das propostas pedagógicas vigentes em universidades e cursos técnicos e/ou livres específicos, no que concerne ao universo da caracterização enquanto composição de figurino, cabelo e maquiagem, pensados para além de sua execução técnica final. Ficha Técnica: Comissão Editorial: Profª Drª Joana Kretzer Brandenburg; Profª Drª Luciana Soares de Medeiros; Profª Drª Rosane Muniz Rocha; Profª Ms. Alexandra de Melo Produção Editorial: Ivo Godois Editora executiva: Maria Ondina Xavier F. e Costa e Alexandra de Melo