
Dando continuidade à série "Drummondiando", no vídeo de hoje, faço um comentário acerca do poema "Um boi vê os homens", do livro "Claro enigma", em diálogo com o poema "O boi", do livro "José". O BOI (Carlos Drummond de Andrade) Ó solidão do boi no campo, ó solidão do homem na rua! Entre carros, trens, telefones, Entre gritos, o ermo profundo. Ó solidão do boi no campo, Ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol, é indiferente, A escuridão rompe com o dia. Ó solidão do boi no campo, Homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável E as casas não têm sentido algum. Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa Em silêncio na rua cheia. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas, a vida salva… Mas o tempo é firme. O boi é só. No campo imenso a torre de petróleo. UM BOI VÊ OS HOMENS (Carlos Drummond de Andrade) Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente, falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra. Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias. Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme (que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo como pedras aflitas e queimam a erva e a água, e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.