Como é que a gente aprende a ver? É uma das perguntas que atravessam esta conversa entre Joana Levi e Zoy Anastassakis, antropóloga que fez parte do processo criativo de "Câncer em Saturno", a terceira e última peça da trilogia de performances de Joana sobre as relações do humano com o mundo não humano. Para responder, Joana volta às duas peças que a antecedem. "Rasante" nasceu no âmbito do Terra Batida, e foi uma residência no Alentejo que a levou a olhar para as aves com outra atenção. Em Primárias e Exóticas, a pesquisa foi para a história das florestas em Portugal. Em ambas, Joana percebe que acaba sempre a investigar relações coloniais, seja entre humanos, seja entre a vida humana e a vida da natureza, animal e vegetal. Em "Câncer em Saturno", o olhar vira-se para dentro e para cima. Joana parte da experiência do cancro da mama e da observação do próprio corpo, sujeito a terapia hormonal para combater um tumor, para pôr o universo celular em conversa com leituras astrológicas e astronómicas. Para encontrar um contínuo entre a visão micro e a visão macro, comprou um microscópio e um telescópio, e fez quatro residências de pesquisa com o microbiólogo Álvaro Fonseca, o filósofo André Barata, a astróloga Angélica Ferroni, o astrofísico Pedro Machado e a própria Zoy. Do ponto de vista de duas cariocas que vivem e criam em Lisboa, a conversa chega a uma ideia que fica: em "Câncer em Saturno", o chão de Joana é o seu corpo. https://teatrodobairroalto.pt/pt/evento/cancer-em-saturno Joana Levi nasceu no Rio de Janeiro em 1975 e vive em Lisboa desde 2017. É licenciada e pós-graduada em Filosofia e Estética. Performer, encenadora e dramaturga, trabalha entre a live art, o teatro, a dança e a filosofia, muitas vezes em autoria partilhada, e colaborou recentemente com Carlota Lagido, Sónia Baptista, Rita Natálio, João dos Santos Martins, Gustavo Ciríaco e Julia Salem, entre outros. No Brasil, criou Museu Encantador, com Rita Natálio (Prémio Funarte de Artes Visuais), Rózà, com Martha Kiss (Prêmio Zé Renato de Teatro), e In_Trânsito, com a Companhia Marginal. Há mais de 20 anos pesquisa as ligações entre corpo, imaginação, perceção sensorial e dramaturgia. Rasante, Primárias e Exóticas e Câncer em Saturno formam a sua trilogia sobre as relações do humano com o mundo não humano. Zoy Anastassakis é antropóloga e académica brasileira, com formação inicial em design, mestrado e doutoramento em antropologia. Tem dividido o seu tempo entre o Rio de Janeiro e Lisboa. É professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro desde 2012, onde dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) entre 2016 e 2018 e lidera um grupo de pesquisa que cruza design e antropologia. Na ESDI, coordenou o projeto de extensão Correspondências, que pôs em diálogo artistas indígenas, investigadores, estudantes e investigadores de design. Em 2017 foi investigadora visitante na Universidade de Aberdeen, num projeto liderado por Tim Ingold, e fez pós-doutoramento em Lisboa entre 2019 e 2020, como membro do CRIA. É autora de Triunfos e Impasses (2014), Refazendo Tudo (2020) e Everyday Acts of Design (2022, com Marcos Martins). Conversa com Joana Levi e Zoy Anastassakis Edição: Joana Linda Produção: Teatro do Bairro Alto