
Os últimos textos escritos por Viktor Laurence foram cartas, bilhetes, recomendações. Seu testamento. É fácil imaginá-lo sentado de roupão à mesa colonial da sala, xícara fumegante de chá inglês ao lado, a pele da mão ainda amarelada pela luz do abajur, escrevendo com sua caligrafia rebuscada, cheia de floreios, rodeado por livros que, dá pra afirmar sem medo de engano, ele amou muito mais do que as pessoas que conheceu no mundo. Vários cômodos do sobrado hospedaram torres oscilantes de livros. Viktor lia em quatro ou cinco idiomas. Tinha aquela capacidade encantadora de falar de personagens literários como se fossem reais. Falava com afeição, como se de amigos queridos. Nunca o ouvi referir-se a qualquer ser humano de suas relações com metade desse entusiasmo. O que posso fazer, Viktor me perguntava, se me dou melhor com eles do que com as pessoas ?