
Em tudo existe consciência e reciprocidade. A psique vira-se de dentro para fora e integra a rede que a natureza costura. Como um coelho atento, escutamos a doçura das flores, somos tocados pelo som dos pardais, cheiramos a sensualidade das cores, saboreamos o crepúsculo e cheiramos o vento. Sentimos orelhas, bigodes, almofadas das patas, músculos ativos. Sentimos a ligação entre o corpo humano e a Terra. E se a psique corresse livre e curiosa atrás de um pardal? E se a psique viajasse ao corpo da Terra com a semente? Pertencemos à paisagem e é nela que a psique mora. E somos também lugares, onde as pedras descansam e o sol se põe. Não existimos separados dela, nela existimos embebidos e é quando nos tornamos sensíveis a tudo, a todos e a cada um que reparamos a ferida do desamparo. Reparamos a relação primordial em que nada nem ninguém é objeto, nem alheio aos nossos gestos. E existe o lugar da história, que é o lugar da psique e o lugar da paisagem e é, precisamente, na relação que a história se conta, escreve e resignifica. E se quando a flor nos visitar na nossa história, o fizer enquanto a flor que é? E se a flor não for mera representação, símbolo ou metáfora? E se cada palavra nossa se embebesse nas histórias da Terra? Contamos, escrevemos e resignificamos juntos? Aceitamos o convite da flor? Afinal, conhecemo-la desde que é semente... Ana Sevinate Psicóloga Clínica. Psicoterapeuta em Braga e psicóloga de cuidados paliativos no Porto. Dedicada ao tema do luto e da perda, a ecopsicologia surge, naturalmente, como o olhar que une e dá sentido. Integra os projetos Histórias de Raiz e Alma-Gaia. Colabora com a associação Compassio e é formadora no curso de Doulas de Fim de Vida. Colabora com a revista “Vento & Água”. É autora do livro “Ser Terra”. Sobre o encontro aqui. Sobre o livro aqui.