
Há histórias que se perdem nos tempos, mas que moldam os rumos humanos. Estas histórias encontram-se no âmago das mais diversas culturas e civilizações, retratando eventos cosmológicos, explicação de fenómenos naturais, sagas, heróis e deuses. Estes mitos, tradicionalmente imbuídos pela dinâmica da oralidade ou plasmados nas folhas de um livro, são a base de muitas religiões, rituais e condutas morais, encontrando-se, assim, enraizados no inconsciente coletivo, sendo responsáveis por grande parte das atitudes e emoções humanas de um povo. Se um mito narra um homem dominador e explorador da Natureza, essa será a idiossincrasia do povo que o abarca. A civilização hegemónica carrega alguns desses mitos e, também por esse motivo, é uma sociedade onde as desigualdades são gritantes e caminha para o caos climático e o colapso ecológico. Mas, se um povo tem na sua ancestralidade histórias que narram a igualdade de género e de espécie, histórias que falam de uma Natureza sagrada, de um mundo relacional e interconectado, esse povo terá como base ética o cuidado e o respeito por toda a vida. A crise ecológica abriu o debate sobre a relação que temos com a Natureza. Nessa reflexão emergiram muitas perspetivas, algumas delas capazes de transpor os limites do antropocentrismo que delineia o nosso paradigma. É o caso da Plataforma da Ecologia Profunda, que procurou sentido nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Colocou ao lado da ciência contemporânea, a filosofia, a espiritualidade, a prática de vida e o conhecimento ecológico tradicional. A investigação à volta deste último item expôs cosmogonias que repercutiam modos de vida verdadeiramente sustentáveis, influenciando o movimento ambientalista global. Por outro lado, os mitos estão carregados de simbologia e saber. Com as chaves certas podem enriquecer a ecosofia – uma ética consciente e dinâmica que se traduz numa prática de vida harmoniosa e de equilíbrio ecológico – que dá sentido interior ao indivíduo e, por osmose, torna-o numa força viva na mudança social necessária para inverter o mundo distópico que estamos a cavar. Jorge Moreira Licenciado em Ciências do Ambiente, Minor em Conservação do Património Natural, mestre em Cidadania Ambiental e Participação, pela Universidade Aberta, e Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra. É bolseiro FCT e investigador do Centre for Functional Ecology, Science for People & the Planet da Universidade de Coimbra. Vice-presidente da FAPAS - Associação Ambientalista para a Conservação da Biodiversidade; dirigente da Sociedade de Ética Ambiental, dos movimentos cívicos Alvorecer Florestal e Aliança pela Floresta Autóctone. Tem desenvolvido investigação nas áreas da Ética Ambiental, Educação Ambiental, Sustentabilidade, Alterações Climáticas, Ecologia Profunda e Ecologia Espiritual, onde tem realizado conferências e promovido os temas. Sobre o encontro aqui. Sobre o livro aqui.