
Ao entardecer, os estorninhos juntam-se sobre os campos, os canaviais, os parques industriais, dançando à volta dos fios eléctricos, primeiro em pequenos grupos, manchas dispersas que não obedecem a qualquer padrão. Depois, e de súbito, o céu fica tomado de uma matéria escura, que curva e se dobra, se comprime e alonga, milhares de pontos que se movem em simultâneo, sem colisões, sem uma pausa que faça ressaltar o movimento de um face aos restantes. A nuvem desce, torce-se, parece por vezes rasgar-se pelo meio, para se recompor logo depois. Vista de longe, lembra um tecido sacudido pelo vento, uma massa líquida que tivesse adquirido a capacidade de voar. Os ingleses chamam-lhe murmuration, murmuração, palavra que conserva qualquer coisa do rumor produzido por tantos corpos em movimento. O que mais impressiona nem é a dimensão do bando, mas a precisão daquele bailado. Milhares de aves alterando de direcção quase em simultâneo, mantendo as distâncias, e que respondem se alguma ameaça atravessar a nuvem. Durante muito tempo, os naturalistas procuraram a explicação numa espécie de comunicação colectiva, descrita como uma subtil equação misteriosa. Na verdade, nenhum deles está consciente do todo. Limitam-se a ajustar a velocidade e a direcção segundo aqueles que lhes estão mais próximos, mantendo uma relação dinâmica com os vizinhos. A mudança de um indivíduo afecta os que o rodeiam, e estes alteram por sua vez o movimento dos seguintes, e a perturbação propaga-se através do conjunto. Uma inflexão pode atravessar milhares de corpos em fracções de segundo. O bando muda de forma sem que exista um centro a partir do qual a mudança seja ordenada. O físico Giorgio Parisi, que estudou as murmurações dos estorninhos, encontrou neste comportamento um problema fundamental dos sistemas complexos: como pode surgir uma organização de grande escala a partir de interacções relativamente simples entre os seus componentes? Nenhum dos estorninhos conhece a figura que o conjunto está a desenhar, nem antecipa a configuração que terá alguns segundos depois. Cada um responde àquilo que acontece na sua vizinhança imediata, e a forma global resulta dessas respostas, continuamente corrigidas à medida que o bando se desloca. Não há maestro, nem condutor, nem um plano que os indivíduos executem. A ordem não precede o movimento. Produz-se nele, transforma-se com ele e desaparece para dar lugar a outra configuração. Esta coordenação não significa que os estorninhos se dissolvam numa entidade indistinta. Cada ave conserva o seu corpo, a sua posição, a sua capacidade de reagir. É precisamente a multiplicidade dessas reacções que permite ao conjunto mudar de direcção sem se desfazer. A coesão não exige que todos façam exactamente a mesma coisa em cada instante, mas, antes, que cada um permaneça atento ao movimento ao seu redor e ajuste o seu próprio movimento em consequência. É uma nuvem de infindáveis eixos. O bando mantém-se numa negociação contínua entre separação e proximidade, entre a liberdade de cada trajectória e as condições que a tornam compatível com as restantes. As murmurações têm também uma função concreta. Ao anoitecer, os estorninhos reúnem-se em grandes dormitórios, por vezes com milhares ou centenas de milhares de indivíduos. A concentração oferece vantagens contra os predadores, cuja aproximação se torna mais difícil de acompanhar e cujo ataque perde eficácia perante uma massa que muda incessantemente de contorno. A nuvem não é, portanto, uma coreografia gratuita. A sua beleza emerge de um comportamento que envolve sobrevivência, vigilância e resposta rápida ao perigo. O espectáculo que vemos do chão é a manifestação visível de uma rede de relações que não conseguimos observar directamente. Quando a filha de um dos seus comparsas daquele período tumultuoso que veio a eclodir na revolta que se desenrolou na Primavera de 1968, em França, procurou Olivier Rolin para lhe pedir que lhe falasse do pai, este começou por desculpar-se, adiantando que lhe seria impossível falar dele «sem te falar de nós». «Não sei como fazer-te compreender, não éramos assim tanto ‘eu’,… na altura. Tinha a ver com a nossa juventude, mas principalmente com a época. O indivíduo parecia-nos negligenciável, até mesmo desprezível. O Treize, o teu pai, o meu eterno amigo, é um dos nossos. Um dos fios do novelo. Não posso desembaraçá-lo, dobá-lo, arranca-lo de nós, senão fá-lo-ia morrer uma segunda vez. Sem nós a sua imagem murcharia – sem ‘nós, todas as nossas memórias se apagam. Estávamos juntos, até ao absurdo. Não éramos a História, mas éramos histórias, reais, imaginárias, entrecruzadas, que fabricávamos, um feixe de histórias.» Como reintroduzir este apelo num tempo em que, por toda a parte, é o «eu» que se afirma, que ergue as suas ficções prepotentes, mesmo se os frescos sociológicos que depois se nos apresentam parecem manchas esborratadas, vidas estagnadas, amortecidas, naturezas-mortas? Vive-se os dias entregues a um zumbido, gestos que se corrigem infindavelmente, emendas que cada vez mais destroem qualquer desenho mais subtil, deixando a impressão de que viveriam pela eternidade fora, sem esboçarem o menos gestos autêntico, um ímpeto capaz de alimentar perturbação, pensar um encadeamento de transformações no espaço ao seu redor. Estes seres que corporizam um a um todos os sinais da abdicação, herdando das gerações mais velhas fragmentos desconexos de ilusões passadas, vendo-se adormecidos pela rotina do trabalho e das humilhações que o cercam, incluindo a desse consumo de todos os programas e produtos que possam servir-lhe de alívios, ócios e lazeres inócuos, acatando um sem número de «responsabilidades», e deixando-se esmagar sob o peso de hábitos que, no fundo, se resumem ao hábito de não esperarem nada da vida. Como assinalavam os situacionistas, «o uso da vida quotidiana, no sentido de um consumo do tempo vivido, é comandado pelo reino da raridade: raridade do tempo livre e raridade das utilizações possíveis deste tempo livre». Notando como «a vida quotidiana se encontra organizada adentro de limites duma pobreza escandalosa», esclareciam que esta nada tem de acidental, «tratando-se, como se trata, duma pobreza imposta a todo o momento pela sujeição e pela violência duma sociedade implicada em atomizar as pessoas enquanto consumidores isolados, interditando a comunicação». «A vida quotidiana é assim vida privada, domínio da separação e do espectáculo.» Por seu lado, Che Guevara deixou estas questões em termos muito claros: «Quando se passam coisas extraordinárias na rua, é a revolução.» Ainda não lá chegámos, ainda estamos longe de vislumbrar «a cavalaria do mundo de patas para o ar», mas, por estes dias, há sinais de uma recusa cada vez mais firme do pequeno leque das condutas lícitas, dessa pressão que lança a vida para a clandestinidade, e do progredir da morte e do vazio que se impõem pela lenta extinção dos circuitos, pela confusão e inapetência terminais. Estamos mais perto de ver as avenidas transformadas em campos de papoilas, e já algumas vozes jovens se encorajam, murmurando contra essa doença que procura coalhar todos os fervores: «Não deixes os cínicos, essa matilha empanturrada de publicidade e sondagens, não os deixes insultar-nos.» Para já, distraem-nos do aborrecimento, esse que é o mais sórdido dos mantos da miséria, enquanto essa ladainha hipócrita da burguesia procura atribuir-lhes responsabilidades pela violência, quando é a sociedade como um todo que não tem outra resposta além de procurar integrar-nos por via de humilhações cada vez mais degradantes. Daniel Cohn-Bendit resumia bem as coisas ao notar que a hipocrisia burguesa consiste em dizer: «mais vale perpetuar os ferimentos internos, que não são visíveis, do que arriscarmo-nos a fazer correr sangue». Mas se as lógicas de intimidação falham, logo começa a correr o sangue. Por agora o sinal de encantamento está com esses que no meio destas cidades que não passam de extensos necrotérios, foram surgindo zonas desconjuntadas e poéticas, de uma fragilidade indesmentível, mas que rompem com todo esse ambiente corrosivo e sufocante, e em que já não é o dinheiro a única função, mas o desejo redesperta, e parece ser possível repensar o jogo revolucionário, os modos de criação da vida. Neste episódio, Manuel Bivar junta-se a nós para abalroar certas presunções e velharias, a começar pelas ideias que se fazem hoje sobre o Interior, e, em particular, sobre o Alentejo do latifúndio. O seu mais recente livro, Savana Gelada, é um livro de memórias e uma saga familiar com morte, violência, muita comida e mestiçagem: Uma oração genealógica, uma obra de evocação e luto, mas também uma relação etnográfica que refaz um Alentejo ocultado, onde, ao contrário do que se supõe, há séculos se davam já cruzamentos de sangues vindos de toda a parte, uma exubverância tantas vezes rude, cruel, e um outro mundo que irrompe uma e outra vez e tanta urticária provoca no nosso lusitanismo de aviário.