
Por Antônio Royo Marin. A rigor, não se pode dizer que Deus seja Pai das criaturas, na ordem puramente natural. É verdade que todas saíram de suas mãos, e isso constitui Deus como o autor e o criador de todas elas, mas de modo algum o torna seu Pai. O artista que esculpe uma estátua é o autor da obra, mas não o seu pai. Para ser pai, é preciso transmitir a própria natureza específica ao outro ser vivente da mesma espécie. Por isso, para que Deus fosse, além de nosso Criador, também nosso Pai, era necessário que nos transmitisse sua própria natureza divina. Em toda a sua plenitude, como é o caso de Jesus, ou por participação, que é o nosso caso. A graça santificante nos confere uma participação, misteriosa mas muito real e verdadeira, na própria natureza divina. Em razão disso, nossa alma justificada se torna verdadeiramente filha de Deus, por uma adoção intrínseca, muito superior às adoções humanas, que são puramente jurídicas e extrínsecas. A partir desse momento, Deus começa a estar na alma como Pai e a vê-la como verdadeira filha sua. A presença de Deus na alma de quem recebeu a graça santificante, por sua vez, é própria e exclusiva dos filhos de Deus.