
Grande infelicidade é o abuso das graças divinas. Mas é possível reparar esse mal. Em uma oração espalhada em certas comunidades, é formulado esse tríplice pedido: "Meu Deus, tende a misericórdia e a generosidade de me fazer reparar, antes da minha morte, todos os abusos de graças que eu tenha tido a infelicidade de cometer. Fazei-me chegar ao grau de mérito e de perfeição ao qual desejáveis me conduzir, segundo a vossa primeira intenção, e que eu tive a desgraça de frustrar por minhas infidelidades. Tende também a bondade de reparar nos outros os abusos de graças que cometeram por minha culpa". Nada mais justo do que esse pedido. Deus pode, se pedirmos, aumentar as graças que destinava à nossa alma. Se nos mostrarmos fiéis aos novos convites de Deus, esse aumento de graças pode reparar as perdas anteriores. A quem não soube se aproveitar de uma provação, o Senhor poderá dobrar as provações subsequentes, mandando-lhe aquelas que teria suportado se tivesse sido sempre fiel, e outras mais, destinadas a substituir as que não produziram frutos. As ocasiões de sacrifícios podem ser igualmente duplicadas para suprir os sacrifícios recusados. As graças de esclarecimento podem ser dadas com maior abundância, a vontade pode receber maior energia, um amor mais intenso e mais puro pode ser comunicado à nossa alma. Essas substituições não são impossíveis para Deus e nem são contrárias à sua justiça. Portanto, pela oração nós podemos conseguir essas substituições, pois Deus prometeu atender nossas orações. É isso o que explica a grande santidade daqueles que tinham sido grandes pecadores. Suas faltas passadas foram ocasiões de maior virtude, por causa do arrependimento. Diz São Clemente que Pedro chorou a vida inteira pela traição que ele fez a Jesus. Essa infeliz traição foi transformada em ocasião para muitos atos de amor praticados por Pedro ao longo de sua vida. Por Auguste Sudreau.