
Leitura da Carta Apostólica Desiderio Desideravi, do Papa Francisco, sobre a formação litúrgica do povo de Deus. "17. Várias vezes tenho advertido contra uma perigosa tentação para a vida da Igreja que é a “mundanidade espiritual”: dela falei profusamente na Exortação Evangelii gaudium (nn. 93-97), identificando no gnosticismo e no neopelagianismo os dois modos, relacionados entre si, que a alimentam. O primeiro reduz a fé cristã a um subjetivismo que encerra o indivíduo “na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos” (Evangelii gaudium, n. 94). O segundo anula o valor da graça para confiar exclusivamente nas suas próprias forças dando lugar “a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar” (Evangelii gaudium, n. 94). Estas formas distorcidas do cristianismo podem ter consequências desastrosas para a vida da Igreja. 18. De tudo o que quis recordar acima, resulta evidente que a Liturgia é, pela sua própria natureza, o antídoto mais eficaz contra esses venenos. Obviamente, falo da Liturgia no seu sentido teológico e não, certamente – já Pio XII o afirmava – como “um cerimonial decorativo (…) ou mera soma de leis e de preceitos (…) que regulam o cumprimento dos ritos” [6]. 19. Se o gnosticismo nos intoxica com o veneno do subjetivismo, a celebração litúrgica liberta-nos da prisão de uma autorreferencialidade alimentada pela própria razão ou pelo próprio sentir: a ação celebrativa não pertence ao indivíduo mas a Cristo-Igreja, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo. A Liturgia não diz “eu” mas “nós” e qualquer limitação à amplitude deste “nós” é sempre demoníaca. A Liturgia não nos deixa sós na busca individual de um suposto conhecimento do mistério de Deus, mas toma-nos pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir para dentro do mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam. E fá-lo, em coerência com o agir de Deus, seguindo a via da encarnação, através da linguagem simbólica do corpo que se prolonga nas coisas, no espaço e no tempo. 20. Se o neopelagianismo nos intoxica com a presunção de uma salvação ganha com as nossas forças, a celebração litúrgica purifica-nos proclamando a gratuidade do dom da salvação acolhida na fé. Participar no sacrifício eucarístico não é uma conquista nossa como se disso nos pudéssemos gloriar perante Deus e os irmãos. O início de cada celebração recorda-me quem sou, pedindo-me para confessar o meu pecado e convidando-me a suplicar à bem-aventurada Virgem Maria, aos anjos e santos e a todos os irmãos e irmãs que roguem por mim ao Senhor: porque não somos dignos de entrar na sua casa, precisamos de uma palavra sua para sermos salvos (cf. Mt 8, 8). Não temos outra glória a não ser a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6, 14). A Liturgia não tem nada a ver com um moralismo ascético: é o dom da Páscoa do Senhor que, acolhido com docilidade, faz nova a nossa vida. Não se entra no Cenáculo a não ser pela força de atração do seu desejo de comer a Páscoa connosco: Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum, antequam patiar (Lc 22, 15)”. Texto completo em: https://falachicopodcast.com.br/desiderio-desideravi-2022 -- Compartilhe suas opiniões, reflexões e experiências dos episódios do Fala, Chico! Envie-nos uma mensagem de áudio pelo link anchor.fm/falachico/message -- Fala, Chico! é um podcast dedicado à leitura de cartas, encíclicas, exortações e homilias dos Papas e textos da Tradição da Igreja Católica, produzido, editado e apresentado por Eugênio Telles. -- Fale comigo nas redes sociais: facebook.com/falachicopodcast | instagram.com/falachicopodcast -- Grupo VIP no Whatsapp: https://chat.whatsapp.com/JKyhB671ktVBUJ4YSBAfpE