
Passado o Carnaval (ainda que para alguns mais um entre tantos feriados no calendário), aqui traduzido como uma das principais e mais democráticas festas populares, onde a alegria e a ludicidade (também espaços de resistência) dão o tom e podem, respeitosa e civilizadamente, ocupar ruas e avenidas, celebrando a vida e a capacidade de sonhar... Seja como consciente respiro nas agruras e mesmices cotidianas... Seja como protestos legítimos, resgates históricos e permissão menos engessada de expressão... O marco se faz e o ano começa... Feliz 2023! Pensando na descontração da Festa em contraste com o rigor da existência, a plasticidade a todos molda... De repente sinais de alegria e beleza são detectados em meio a dor e a tragédia... A arte captura momentos e movimentos. Confere tom, tônus, pulso, ritmo a vida! Resgato aqui uma aproximação singela entre Nietzsche e Ferreira Gullar, que fiz em recente Sarau, aqui na Serra Gaúcha. "A arte existe para que a realidade não nos destrua"... Quando Nietzsche assim falava não se referia ao culto da beleza apolínea, mas a densidade factível das tragédias que nos fazem reconhecer, lidar e, quiçá, transformar as dimensões do sofrimento inseridas na existência. Nietzsche faz da tragédia forma de potencializar a vida por meio da experiência, de aproximar as leituras de mundo apolíneas e dionisíacas... Em algumas passagens encanta, em outras incomoda... Quase um Nelson Rodrigues da filosofia... Afinal de contas, quem foi que decretou a cisão entre Razão e Emoção, entre ideia (mundo inteligível, arquetípico) e fato (mundo sensível, concreto), entre abstrato e sensorial?! Eleger diálogos preferenciais com um plano não implica necessariamente na negação do outro. Assim fez Platão (com o inteligível), assim fez Aristóteles (com o sensível)... Nunca os percebi de costas um para o outro, quando não abraçados, estavam de mãos dadas. Tenho a impressão de Ferreira Gullar, à sua maneira, navegar as mesmas águas, quando diz: "A arte existe porque a vida não basta". Prova dessa espécie de encantamento, assombro e transbordamento que somos nós vida a fora, se nota em "Traduzir-se" (integra a coletânea "Na Vertigem do Dia" / poemas de Ferreira Gullar, de 1980 / posteriormente, popularizou-se musicado por Fagner, LP de mesmo nome, de 1984): "Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?" orior.com.br/ana-rita