
Poema-manifesto que desde que conheci me suspende e atravessa com o ardor da primeira vez: "CÂNTICO NEGRO", de José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901-1969 / Vila do Conde, Portugal). Integra seu primeiro livro: "Poemas de Deus e do Diabo", de 1926. A religiosidade, um dos pilares de suas reflexões metafísicas, é recorrente em sua obra. (Ana Rita de Calazans Perine) orior.com.br/ana-rita “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali. A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe.….. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos… Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: “vem por aqui!”? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí… Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?… Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos… Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios… Eu tenho a minha loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios… Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo... Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: “vem por aqui!” A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou… Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!