
A ideia de uma psicanálise aberta ao público, especialmente àqueles que não têm condições de pagar por um tratamento, teve como expoente o próprio Freud: “Se a psicanálise, ao lado de sua significação científica, tem valor como procedimento terapêutico, se é capaz de fornecer ajuda àqueles que sofrem em sua luta para atender às exigências da civilização, esse auxílio deveria ser acessível também à grande multidão, demasiado pobre para reembolsar um analista por seu laborioso trabalho.” Mas é preciso ressaltar que uma psicanálise como política social de saúde pública não equivale a uma Clínica Aberta, cuja experiência se pretende às margens, por encontrar-se deslocada das instituições do Estado. Sem entrarmos nos pormenores dos possíveis impasses que uma psicanálise como direito comportaria, o que pretendemos ressaltar é que uma Clínica Aberta não se constitui como uma política pública, apesar de seu caráter político e público. O psicanalista pauta sua estratégia clínica pela singularidade dos significantes de cada sujeito, cabendo uma margem de liberdade na tática, mas no sentido da política da direção de um tratamento sob o desejo do analista. Dessa forma, que fique claro: uma Clínica Aberta não substitui nem pretende preencher as lacunas do Estado e a defasagem de políticas sociais públicas por meio da filantropia ou do trabalho voluntário, como uma espécie de “braço esquerdo do Estado”. A Clínica Aberta, como dispositivo, sustenta-se a partir da ética analítica, o que contradiz o esforço neurótico por um Outro supostamente todo-consistente, ponto em que o desejo é escamoteado.