
Existe um tempo que só a alma conhece. O relógio não marca esse tempo. O calendário também não. É o tempo que existe entre compreender uma dor e, finalmente, deixar de carregá-la. Às vezes, pensamos que já seguimos em frente. Afinal, a vida continuou. Os dias passaram. Novas pessoas chegaram. Novos caminhos se abriram. Mas basta uma palavra, um lugar, um rosto… e alguma coisa, lá dentro, muda de lugar. Não é falta de força. É porque o coração não funciona como uma gaveta que se fecha depois de organizada. Ele é mais parecido com uma casa. Há cômodos que permanecem fechados por muito tempo. Não porque esquecemos o que existe ali, mas porque ainda não encontramos coragem para abrir a janela. E talvez Deus nunca tenha se incomodado com isso. Porque Ele conhece a diferença entre quem alimenta uma ferida e quem ainda está aprendendo a tocá-la sem sentir tanto medo. A maturidade não chega quando deixamos de sentir. Ela chega quando a dor deixa de decidir por nós. Nesse dia, quase sem perceber, voltamos a fazer planos. Voltamos a rir sem culpa. Voltamos a acreditar nas pessoas sem achar que toda história terminará do mesmo jeito. A cura, talvez, seja isso. Não o desaparecimento da cicatriz. Mas o momento em que ela deixa de ser o centro da nossa vida. E quando isso acontece, Deus sorri em silêncio. Porque há milagres que não aparecem nos olhos. Acontecem primeiro dentro da gente.