
Como a voz de pessoas escravizadas conseguiu romper o silêncio de uma sociedade brutal para transformar a luta pela liberdade nas Américas? Imagine ser sequestrado e acorrentado a poucas quadras do Capitólio, o próprio centro do poder político em Washington, como viveu Solomon Northup, ou ser um poeta amordaçado e duramente punido por recitar versos antes mesmo de aprender a ler e a escrever, feito que alcançou de forma autodidata, copiando clandestinamente letras descartadas no lixo pelo seu senhor como no raro e impressionante relato do cubano Juan Francisco Manzano. No novo episódio do podcast Hora Americana, nossos ouvintes são convidados a mergulhar no fascinante universo dos relatos e autobiografias de ex-escravizados ao lado do historiador Rafael Domingos Oliveira, autor do livro “Vozes Afro-Atlânticas”. A conversa desbrava histórias impactantes de resistência, desde a trajetória atlântica de Mahommah Gardo Baquaqua, o único ex-escravizado no Brasil a publicar uma autobiografia, até o testemunho visceral de autoras negras como Harriet Jacobs, que viveu quase sete anos escondida no sótão diminuto de uma casa para escapar da violência sexual de seu perseguidor e manter-se perto de seus filhos. Ao longo da entrevista, o episódio incita a reflexão sobre mistérios e contradições do mercado editorial do século XIX: por que o mundo anglófono produziu centenas de livros do gênero enquanto na América Ibérica essas vozes ficaram frequentemente restritas a cartas e processos judiciais? O debate explora também o paradoxo das disputas de autoria, em que narradores negros precisavam de prefácios assinados por homens brancos como "certificados de autenticidade" para que suas vivências fossem aceitas por uma sociedade racista. Para enriquecer ainda mais a jornada, o programa traz uma dica imperdível da HQ Mukanda Teodora, de Marcelo D'Salete, inspirada nas cartas reais de uma mulher escravizada em busca de sua alforria e de sua família em São Paulo. Prepare os fones de ouvido para uma reflexão transformadora sobre escrita, memória e os significados da liberdade. Dê o play no Hora Americana e descubra como esses relatos continuam disputando a história e o nosso presente!