
Obra exigida no vestibular da Unicamp retrata uma sociedade patriarcal que encontra eco na atualidade. O livro “A Falência”, de Júlia Lopes de Almeida, foi lançado em 1901 e é considerado um marco da transição entre as literaturas dos séculos 19 e 20. “Existe um incômodo histórico da autora, porque, em muitos livros pregressos, ‘Ana Karenina’, ‘Madame Bovary’, ‘Primo Basílio’, os casos extraconjugais levam a mulher à morte”, avalia o professor de literatura do Cursinho da Poli, Murilo Gonçalves. Na obra, que o entrevistado classifica como parte do realismo / naturalismo, o desfecho busca combater essa visão da sociedade patriarcal. “Nesse livro (…), o caso extraconjugal faz com que ela persevere na vida. O marido acaba morrendo, eles perdem tudo e ela segue trabalhando”, conta Gonçalves, referindo-se à personagem Camila, que, após a morte do marido, torna-se professora, com a missão de alfabetizar outras meninas. Ao propor essa revisão em relação a temas como adultério, e também à escravidão, a autora faz um balanço do que ocorrera até então e, como se denota pelo título “A Falência”, aponta problemas. “A gente tem um país que aboliu a escravidão e continua sendo, em alguma medida, extremamente racista e com grande dificuldade de aceitar a abolição. Então, percebemos essa ideia de dificuldades de emancipação de certos grupos: os negros e as mulheres, que são duas bandeiras que aparecem com muita força no livro”, resume o professor. No áudio, Murilo Gonçalves lê um trecho do livro e explica sobre a importância de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) para a literatura brasileira, desde os primeiros anos da República até a morte da autora. Neste que foi o seu quarto romance, há uma reprodução da sociedade do período, que evidencia problemas econômicos, morais e étnicos ainda não resolvidos nos dias de hoje. Imagem: Murilo Gonçalves destaca as questões de gênero e racismo abordadas no livro “A Falência” (crédito: Marcelo Abud)