
Novidade na lista da Unicamp, texto está em domínio público. “O Marinheiro” é uma das novidades da lista da Unicamp. Trata-se do único texto teatral de Fernando Pessoa (1888-1935) publicado em vida. No entanto, o professor e coautor do material de português do Sistema Anglo, Eduardo Calbucci, entrevistado neste podcast, faz uma ressalva. “Quando criava os heterônimos, ele comparava isso com uma experiência teatral. A obra de Pessoa se vale de elementos teatrais, ainda que não seja propriamente teatro”. Em “O Marinheiro”, três mulheres conversam sobre suas existências. A cena se passa em um velório, em que uma delas comenta sobre um sonho com a figura desse profissional. “Tem esse marinheiro sonhando com o mundo ideal e parece que há uma fusão de planos entre o que elas estão dizendo e o que elas estão sonhando.” Em um espaço atemporal, as três veladoras, como o texto se refere a elas, passam a noite entre sonhos, acontecimentos e imaginação. “Há o momento em que o marinheiro descobre que o que ele tinha imaginado era muito mais real do que o que tinha vivido. As três vivem exatamente o mesmo conflito.” Para o professor, a peça promove uma fusão de planos narrativos. Isto dá a sensação de que as personagens, tal qual o marinheiro do sonho, também não sabem se o que elas estão vivendo é realidade ou fruto da imaginação. Escrita em 1913, o texto tem traços do simbolismo, movimento literário que surge como reação ao materialismo e ao cientificismo que imperavam nas artes desde o final do século 19. Calbucci ressalta que “a obra transcende essa base simbolista e chega a dialogar com as vanguardas europeias”. Além disso, é um drama estático. “É muito mais uma obra de movimentação interna do que de movimentação externa”, conclui. Imagem: Montagem da peça feita pelo grupo Mirateatro, com direção de Nanci de Freitas (crédito: divulgação/Ana Clara Souza).