
O Brasil vai às urnas no próximo domingo (4) numa eleição em que é difícil prever o resultado final da disputa à presidência da República. Pesquisas apontam que deve haver segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolonaro (PL), mas, em tese, os dois principais adversários, que aparecem tecnicamente empatados, ainda têm condições de vencer no primeiro turno. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Os próximos dias são cruciais porque em geral é quando indecisos sedimentam a escolha e quando eleitores avaliam se migram para nomes com mais chance na disputa. “É aquele famoso caso de brasileiros que deixam para a última hora a escolha do voto. É um pequeno grupo, mas numa campanha acirrada, é um público importante”, afirmou Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. “Por exemplo, está sendo suscitado dentro do Partido Novo uma movimentação para já abandonar o voto a (Romeu) Zema no primeiro turno e focar em Flávio Bolsonaro. Mas, do jeito que as coisas estão postas e como as pesquisas estão demonstrando, nenhum dos dois candidatos tem maioria absoluta de votos necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. O cenário eleitoral está bastante aberto sobre quem vai ser o vencedor”, destacou o analista. Desafios de Lula O candidato do PT tem entre seus desafios convencer o maior número de apoiadores a comparecer às urnas, já que o índice de abstenção costuma ser maior entre os eleitores de baixa renda, nicho em que Lula é mais forte. “Essa vantagem de Lula nesse segmento enfrenta uma questão que é o debate sobre o comparecimento eleitoral, e a tendência é de maior ausência entre eleitores com menor rendimento”, disse Vieira. O analista também frisou que hoje o maior adversário de Lula não é exatamente a figura de Flávio, mas a ideia de mudança buscada por muitos eleitores que compraram a narrativa do candidato do PL, ainda que ele seja um nome construído no sistema. A campanha de Lula, que teve dificuldade em defender o legado das gestões petistas e de apresentar bandeiras novas consolidadas, inclusive em meio à crise envolvendo Supremo Tribunal Federal, lançou mão de medidas como o reajuste do Bolsa Família e o fim das apostas online, na tentativa de gerar um debate programático nesta reta final. Desafios de Flávio Os últimos dias foram marcados por novas revelações que reforçam a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, como viagens no avião do ex-dono do banco Master, em apuração no Supremo Tribunal Federal. No entanto, foram polêmicas mais distantes da toga que geraram repercussão. Uma delas foi o embate eleitoral nos púlpitos religiosos, impulsionado pela preocupação de setores da Igreja Católica com o protagonismo do segmento evangélico na campanha de Flávio, assunto que ganhou força nas redes sociais diante da repulsa demonstrada por parte desse grupo à figura de Maria. Além de correr para conter estragos entre os eleitores católicos, Flávio tenta equilibrar o discurso para manter os eleitores de direita que já aderiram a seu nome e avançar sobre aqueles que ainda o veem como um expoente de ideias conservadoras mais radicais. “A campanha dele, de certa forma, encontra um teto, que é a questão das ideias extremas. Há uma parcela, ainda que muito pequena da sociedade, que opta em não querer nenhum e nenhum outro, mas vai ter que escolher alguém e isso pode fazer diferença”, afirmou o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. A relação com Donald Trump é outro exemplo. Os apoiadores de Lula são contrários à interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira. Já os eleitores de Flávio tedem a vê-la de forma mais favorável. E uma pequena parcela ainda pesa se isso representa um risco importante a ser considerado nas urnas. Fim das bets Outro tema que virou embate entre os dois principais nomes foi a medida provisória (MP) assinada pelo presidente Lula que acabou com as apostas online. “Eu conversei com uma mulher que tentou se matar, com outra cujo filho tirou a própria vida por causa de dívida de jogo. Então eu tomei essa decisão, porque é uma coisa muito séria”, disse Lula. “Interrompo minha campanha mais uma vez para falar à nação brasileira. Lula está cometendo mais uma estelionato eleitoral, acabando com as Bets a nove dias da eleição”, criticou Flávio. O candidato do PL diz que foi o governo petista que regulamentou as apostas online, inclusive cobrando impostos desse segmento. Sustenta que não há, portanto, motivo para uma proibição às vésperas do pleito, o que classifica como medida eleitoreira. A campanha de Lula rebate afirmando que o governo regulamentou e criou regras sobre algo aprovado pelo Congresso em 2018, durante o governo de Michel Temer. E que decidiu proibir agora porque verificou que a regulamentação, feita em 2023, não surtiu efeito. Frisa também que durante o governo Bolsonaro, as bets já estavam autorizadas a funcionar, mas sem nenhuma regra, porque o ex-presidente não editou normas para regulamentá-las. Embora a MP tem força de lei imediata, o Congresso terá de pronunciar sobre o tema, o que deve ser feito após as eleições. E o assunto, que envolve de clubes de futebol a influenciadores digitais, deve render também ações na justiça. Pelas pesquisas, a maioria dos brasileiros tem defendido a proibição das bets.