
Bem-vindas e bem-vindos ao podcast 6 de Ficção Brasileira I. Hoje vamos falar da crônica de João do Rio, que foi multifacetada, indo da crônica-reportagem à crônica social, de que resulta um painel complexo da sociedade brasileira das duas primeiras décadas do século XX. A primeira fase de sua crônica é a mais valorizada atualmente, perfazendo um arco que vai de "As religiões no Rio" a "Vida vertiginosa", passando pelo famigerado volume "A alma encantadora das ruas". Cronista-flâneur, que andava pela cidade em seus territórios de luxo e miséria, como uma figura mercurial, em permanente trânsito entre polos opostos. Como viveu em uma época de profundas transformações na paisagem urbana (o chamado "Bota abaixo", da reforma na ordem urbanística encetada pelo prefeito Pereira Passos), as inovações técnicas ocupam papel relevante em sua obra de cronista, percebendo o impacto que as mesmas têm sobre a percepção -- isso em uma sociedade hedonista, em que a sensação/estesia era extremamente valorizada. Ao mesmo tempo, João do Rio é um cronista que está atento ao inventário de antigas tradições que são soterradas pela modernidade (como o Velho Mercado e a população urbana dos morros centrais, que seriam desmontados). "A alma encantadora das ruas" é um dos mais importantes livros de crônicas da literatura brasileira, tanto pelos temas como pela estrutura: dividido em 3 partes, perfaz um trajeto que vai do espaço público por excelência (a rua) ao seu oposto (a prisão), com duas crônicas-ensaios abrindo e fechando a estrutura simétrica do livro.