
Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita. são olhos fogo acesso fogo morto os ombros magros e firmes suportam o meu peso e de todos os homens do bar das ruas das famílias do meretrício da igreja da prefeitura eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja que eu diga realmente. Suas mãos afiladas movem-se na mesma cadência dos cubos de rum gelo tilim tilim no copo, o poeta estende-se na minha frente como um campo largo e canta o hino nacional com um sorriso falso, o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz: todos esses anos não escondem um país de merda, o balcão do bar é de merda, as mesas do bar são de merda, os homens fedem as ruas fedem as casas os cinemas as intenções fedem e eu sou um rato miserável porque não sei gritar até me arrancarem os pulmões. Alguém passa assoviando o poeta se afoga no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe e o poeta angustiado derruba as paredes do bar, agita o teto do bar para o alto, eu espero um dia alguém se aproximar e dizer, você é poeta? quem foi que disse que você é poeta? que autoridade te reconheceu e te permitiu ser poeta? a que sociedade você pertence? e o poeta não sabe que os poetas são presos e espancados e seviciados e mortos neste lugar inocente. Nem sabe que é mais indesejável que um ladrão vulgar. Nem sabe que preparam sua derrota em uma folha de papel ofício timbrado do governo. Cogumelos gigantes levantam-se dos seus sapatos e a multidão de medíocres não sabe escolher uma admiração com os aplausos preparados para um palhaço sem tomate no nariz de gravata, estampa brilhante na televisão. Nem preciso contar a história, as histórias dos jogadores de futebol que são heróis no meu país alegre, por um gol se faz um herói no meu país alegre! e aqui o poeta espreme um pouco de angústia entre cubos de gelo e se afoga em rum falso sem hino nacional para alegrar as noites do meretrício da igreja quando as casas e os cinemas fecham e os homens fedem Juhareiz Correya