
As três primeiras súplicas do Pai Nosso nos levaram em direção a Deus: vosso nome, vosso reino, vossa vontade. A segunda série de súplicas vai apresentar nossas expectativas, sobre nós e sobre este mundo. São pedidos referentes à nossa vida, para alimentá-la e para curá-la. O trigo, atualmente, é o segundo alimento mais consumido do mundo, ficando atrás do arroz. Era um elemento básico da dieta hebraica e parte intrínseca da sua cultura, sendo tema de passagens bíblicas importantes, como a parábola do joio e do trigo. Quando Moisés dá a descrição da terra prometida em Deuteronômio 8:8, ela é apresentada como boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas; é terra de trigo. Passando da matéria prima para o produto final, a produção do pão naquela época não era algo simples. Havia os processos manuais do plantio do trigo, da sua colheita e da moagem. Depois, deveria ser peneirado, transformado em massa, amassado, feito em forma de bolos, e então assado. O pão é citado em Salmos 127:2 como o pão que conseguiram com tanto esforço, ou o pão de dores. Sua produção foi difícil desde Gênesis 3:19: Com o suor do teu rosto comerás o teu pão. O pão aparece para o hebreu como uma comida tão fundamental, tão diretamente ligada à ação primária de sustento físico do corpo, que na língua hebraica, o pão (lechem) deriva diretamente do verbo comer, ou usar como comida (lacham). Mas esse conceito não é ligado somente à parte física. Se considerarmos as letras que formam a palavra lechem, pão, a primeira letra, lamed, significa aprender e ensinar. Seu conceito está ligado à ânsia de se interiorizar o conhecimento. A segunda letra, ח, o chet, (pronuncia ret) traz o conceito da dialética de "ir e vir" entre a unidade absoluta de Deus e a aparente pluralidade da Criação. Está ligada ao medo e à força da vida. A última letra, o Mem, traz o conceito do brotar da sabedoria, e está ligado à água. Da junção dessas letras, o significado de pão está relacionado com o conhecimento, com a sabedoria, mas sempre com uma dualidade de se ensinar e de aprender. De ir e de vir. De medo e de força. Quando o diabo tenta Jesus no deserto, sugerindo que ele transformasse pedras em pães, Jesus responde com uma passagem de Deuteronômio, dizendo que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor, a mesma passagem em que a terra prometida é citada, a terra de trigo. Jesus mostra que o sustento físico vem do pão, mas o sustento espiritual vem da palavra de Deus. No grego, língua em que o novo testamento foi escrito, a palavra que designa pão (artos) está ligada ao verbo airó, que significa aumentar, elevar, sustentar. Nas tentações do deserto, este verbo aparece quando o diabo diz que os anjos tomariam Jesus nas mãos caso ele pulasse, que eles o sustentariam nas suas mãos. Os anjos sustentariam Jesus assim como o pão o sustentaria. Na mesma dualidade da palavra no hebraico, o pão sustenta tanto física quanto espiritualmente. Além disso, sendo a refeição uma espécie de Eucaristia para os judeus, o pão, que era partido e partilhado entre a família, significava, além da provisão diária, a comunhão. Voltando agora para o texto da oração, vemos que não há ostentação, mas sim uma comida simples e ordinária. Não se pede comida para fazer estoque, mas sim o pão do dia para o dia.