
A ILHA DA TRINDADE É UM ANTIGO VULCÃO QUE SAIU DE UMA PROFUNDIDADE SUPERIOR A 5 MIL METROS. Revista Manchete - 1979. A distância, ela parece emergir do oceano como um castelo fantástico, de ameias irregularmente dentadas. Cimo de um vulcão que teve sua última erupção há milhares de anos, a Ilha da Trindade, no extremo da fronteira marítima do Brasil, não passa de um rochedo de 8 quilômetros quadrados. Até agora, era apenas um posto avançado de nossa Marinha de Guerra. Com a construção da pista, que será inaugurada dentro de um ano, ela se transformará num gigantesco porta-aviões ancorado no Atlântico, a meio caminho entre o Brasil e a África. Há menos de um mês, o Ministro da Marinha, Almirante Maximiano da Fonseca, e o Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Délio Jardim de Matos, estiveram na ilha, numa visita da qual fez parte a reportagem de MANCHETE. "Um campo de pouso avançado em Trindade", diz o Brigadeiro Délio Jardim, "irá assegurar o controle marítimo e aéreo do Atlântico Sul". O Almirante Maximiano da Fonseca concorda plenamente com o ponto de vista de seu colega da Aeronáutica. A descoberta da Ilha da Trindade pelos navegadores portugueses foi um acidente obrigatório, pois o rochedo está situado precisamente na rota das caravelas descobridoras. Até bem pouco tempo, os historiadores atribuíam a diferentes navegadores o mérito desta descoberta. Estêvão da Gama, João da Nova, Martim Vaz, Afonso de Albuquerque, Tristão da Cunha. Mas Capistrano de Abreu dirime as duvidas e é taxativo: quem primeiro avistou a ilha, em 18 de maio de 1502, foi Estêvão da Gama, companheiro de Vasco da Gama na sua segunda expedição à Índia. Fisicamente, Trindade é um conjunto monolítico, constituído de basalto vulcânico com características diversas da geografia continental, não se afigurando à cadeia do maciço submarino do Atlântico Central. Elevando-se a mais de 5 mil metros das profundezas submarinas, a ilha exibe o cimo de uma montanha vulcânica caracterizada pela ocorrência visível de lavas e cinzas. As rochas são altamente porosas, permitindo o armazenamento das águas das chuvas e a perenidade das várias nascentes por elas formadas. A superfície da ilha tem dimensões irrisórias: 8,2 km2 fortemente acidentados. Na parte baixa predomina a vegetação de ervas e diferentes espécies de gramíneas. Mas a flora é rarefeita, oferecendo contrastes bruscos com a pequena mata de samambaias gigantes que crescem assustadoramente nos pontos mais altos dos rochedos.