
Em 1968, os jovens franceses foram os primeiros a perceber que a promessa de um futuro melhor começava a falhar. Em 2026, uma nova geração volta às ruas, pressionada pelo custo de vida, pela precariedade e pela falta de perspectivas. O que mudou? Neste episódio do Metanoia Lab, Andrea Iorio parte da metáfora do canário nas minas de carvão — o animal que alertava os trabalhadores para a presença de gases tóxicos — para investigar como a inteligência artificial pode estar agravando tensões sociais que já existiam, mesmo quando não aparece explicitamente nas pautas dos protestos. Principais temas: De maio de 1968 aos protestos atuais: Vamos traçar um paralelo entre gerações que começam a desconfiar das promessas de futuro. Se os jovens de 1968 questionavam se a educação garantiria seu lugar no mercado de trabalho, os de hoje enfrentam dificuldades econômicas e a possibilidade de a IA reduzir as oportunidades profissionais. O canário na mina de carvão: a metáfora ajuda a compreender como os jovens podem ser os primeiros a sentir os efeitos de mudanças estruturais. Um estudo de Erik Brynjolfsson e colegas, do Stanford Digital Economy Lab, identificou que o emprego de profissionais de 22 a 25 anos em ocupações mais expostas à IA estava 19% abaixo do nível esperado em comparação com outras profissões. A Itália e a escada sem degraus: salários reais em queda, escolas com necessidade de reformas urgentes e a saída de jovens do país revelam problemas estruturais que dificultam a construção de um futuro estável. Nesse cenário, a redução de vagas de entrada pode eliminar justamente o primeiro degrau da trajetória profissional. A IA como tecnologia inflacionária: embora o custo por token esteja diminuindo, sistemas agênticos podem consumir mais recursos ao planejar, executar e revisar tarefas. A expansão da infraestrutura de IA também pressiona a demanda por eletricidade, podendo contribuir para o aumento dos custos que chegam às empresas e aos consumidores. Concentração de riqueza e poder: enquanto grandes empresas de tecnologia acumulam valor e seus investidores se beneficiam da expansão da IA, muitos jovens continuam enfrentando salários estagnados e poucas perspectivas. O contraste pode alimentar a percepção de que os ganhos dessa transformação não estão sendo distribuídos de maneira equilibrada. Desinformação e perda de confiança: deepfakes e conteúdos gerados por IA tornam mais fácil fabricar imagens e mensagens capazes de influenciar opiniões. Quando conteúdos falsos se multiplicam, até registros verdadeiros passam a ser questionados, enfraquecendo a confiança na mídia, nas instituições e na possibilidade de compartilhar uma mesma realidade. A tempestade perfeita: emprego, custo de vida, desigualdade e desinformação se combinam para intensificar tensões sociais. A IA não leva as pessoas às ruas sozinha, mas pode amplificar problemas existentes e acelerar mudanças que afetam especialmente as gerações mais jovens. 👤 Andrea Iorio Instagram: https://www.instagram.com/aiorio_br LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/andreaiorio Website: https://www.andreaiorio.com