
Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo Mitocôndria, Nilda Alcarinquë e o convidado Orlando conversam sobre a relação de comida com as religiões de origem africana. Entenda a importancia da comida para as religiões. Reflita junto ao nosso convidado se realmente essas práticas de matriz africana podem ser consideradas religiões ou não. Ouça sobre algumas comidas bem importantes para as religiões de matriz africana. - Esse episódio possui transcrição, veja mais abaixo. LINKS: Benzina -- APOIE o Mitografias -- -- Transcrição realizada por Amanda Barreiro (@manda_barreiro) -- [00:00:00] [Vinheta de abertura]: Você está ouvindo Papo Lendário, o podcast de mitologias do projeto Mitografias. Quer conhecer sobre mitos, lendas, folclore e muito mais? Acesse: mitografias.com.br. [Trilha sonora] Leonardo: Muito bem, ouvintes. Vocês estão com fome? Se não estão, irão ficar, pois o tema de hoje é comida. E hoje estou aqui com a Nilda, a autora dessa pauta do episódio de hoje, e com o convidado, o Orlando. Então, Orlando, seja bem-vindo, pode se apresentar aí e já dizer como que as pessoas te encontram na internet. Fica à vontade aí para dar o oi. Orlando: Boa noite para quem é de boa noite. Bom dia para quem é de bom dia, gente. Eu sou o Orlando, o @anorcofino do Twitter, ogã, antropólogo e também podcaster, eu sou o host, apresento o Benzina ao lado da Stephanie Borges. E é isso, quem quiser me encontrar, vai lá no Twitter, @anarcofino, ou escuta o Benzina. Só procurar nos melhores agregadores de podcast, Spotify, Deezer, essas coisas. Leonardo: Maravilha, a gente já trouxe aí alguém com gabarito na questão e antropólogo e questão também de vivência. Como vocês viram aí pelo título, pela imagem do post e tudo mais, a gente vai falar de comidas e a relação que isso tem com religiões, mas isso é um tema amplo, porque comida está voltada para a humanidade inteira a todo tempo. Então vai ter muita relação de comidas, de alimentação, com praticamente toda religião que se tem aí e que já se teve. Então não dá para a gente falar de tudo, mas a gente vai apresentar o tema e vamos focar nas afro-brasileiras. É o que o nosso convidado tem de vivência também e é bem interessante, a gente sempre gosta aí de ir para esse assunto aqui no Papo Lendário. Nilda: Vou dizer que essa pauta, eu comecei justamente por causa do Orlando às vezes falando no Twitter sobre alguns desrespeitos em relação, ou respeitos em relação ao acarajé e outros costumes da umbanda e até do candomblé, e eu fui procurar um pouco isso, porque, conversando com amigos também, eu fui percebendo que a gente foi perdendo muito a ligação que a gente tem com o alimento. O alimento está virando uma coisa, sei lá, banalizada, uma coisa só de nutrição. Está se perdendo o hábito de comer pelo gosto de comer, e não é gula, não estou falando de você se entupir de comida, mas você sentar e comer uma comida bem-feita. Levando aqui para o lado do Mitografias, também há a ligação divina que a gente tem com o alimento, porque todos os povos sempre tiveram alguma forma de ligar o alimento a alguma divindade, a algum deus - dentro do cristianismo, às vezes até a algum santo ou alguma coisa assim. Então você tem essa ligação, porque a humanidade acaba agradecendo. Você tem muitos relatos dos povos fazendo os seus agradecimentos aos deuses por terem conseguido aquele alimento. Ou agradecem ao deus ou agradecem ao próprio alimento, porque tem povos que, depois de matar um animal ou alguma coisa, fazem algum ritual de purificação ou de agradecimento para aquele animal. Orlando: Se a gente for parar para pensar na história da humanidade, essas regressões que a gente vai fazendo, qual sempre foi a primeira necessidade da existência da vida? A garantia de alimento. Isso é universal de todos os seres vivos. E aí tem um momento em que você tem... os primeiros homo sapiens começam a produzir o seu (imaginário) [00:04:23] simbólico, é justamente sobre a produção de alimento que vai se depositar essa imaginação simbólica, ou seja, é necessário dar algum sentido àquele processo alimentício. Ele não pode ser cognitivado apenas como algo que você está colocando para dentro, porque justamente uma coisa que nos separa dos seres inanimados ou dos não humanos, tipo, sei lá, uma bactéria ou coisa do tipo, é justamente essa produção de sentido sobre os atos. Você não pode ser um autômato. Então isso desde que... basicamente, dar sentido à comida é basicamente o que define a humanidade, é um desses critérios que definem o que ser humano: é dar sentido à comida. Inclusive, se a gente fosse puxar para um lado político, a gente poderia dizer que a não vida, a emergência da não vida, digamos, dessas experiências opressivas, é justamente quando você para de dar sentido à alimentação e a transforma em um mero ato de consumir nutrientes, por exemplo, dando farinhas, aqueles suplementos alimentares para as pessoas de baixa renda, coisa do tipo. Leonardo: E inclusive eu tinha falado isso antes de começar o episódio, em off, mas aqui em São Paulo a gente teve um episódio disso, que foi dada ração, queriam... acho que não foi para frente isso aí, mas queriam dar ração para a população... eu não lembro agora se era de baixa renda, o pessoal mais de baixo, ou eram pessoas de rua. Eu não lembro certinho, mas estava isso de dar ração. E eu achei interessante quando eu vi nutricionistas falando que comida é mais do que apenas os nutrientes, apenas matar a fome. Vai muito além disso. E eu achei interessante ver nutricionistas, não só quem seria antropólogo ou algo assim, que já estudaria mais conceitos diferentes além de só o alimento. Eu achei interessante isso, os próprios nutricionistas mostrando que aquilo lá estava errado, porque aquilo lá não iria realmente alimentar, já que alimentação vai além disso. Orlando: Só para dar um exemplo disso: vocês comeriam cachorro? Sabe? Vocês comeriam outro ser humano? Porque, de uma perspectiva puramente nutritiva, nutricional, não faz muita diferença o que você está comendo. Não faz diferença se você está comendo humano ou cachorro, mas a gente... sei lá, você julga um canibal moralmente. Imagino que, para todos aqui, matar outro ser humano para comer é considerado moralmente errado, e a gente julgaria essa pessoa por isso, a gente classificaria essa pessoa: "Esse aqui é um canibal". Então só esse ato moral de classificar as pessoas, os seres, a partir daquilo que eles consomem, e classificar "Isso aqui é o tipo de comida que uma pessoa, que um ser moral deve comer", só isso já é um ato simbólico importantíssimo, só isso já é produtor de sentido no mundo, sabe? A gente não come qualquer coisa. Além disso, a gente não só não come qualquer coisa, como a gente não come de qualquer jeito, vide, por exemplo, a quantidade de etiquetas, enfim, de distinções que são operadas por meio da forma como nós nos alimentamos. Então todo esse aparato simbólico que a gente reduz a uma mera etiqueta, meros aspectos, digamos, morais, existências, tipo, em populações que não têm neurose normativa como a nossa, de separar as esferas da vida - isso aqui é religião, isso aqui é economia, isso aqui é vida familiar -, isso emerge, ganha um caráter que a gente, na nossa falta de imaginação conceitual, vai classificar como religioso, mítico, enfim, mas que, da perspectiva dessas populações, é apenas a vida delas. Nilda: Quando eu estava estudando sobre os povos da Indonésia, um dos seres que eles levavam para povoar de ilha em ilha era cachorro e havia distinção de que as mulheres não comeriam carne de porco e os homens não comeriam carne de cachorro, e a carne de cachorro era alimento normal. Aí você pensa que para a gente é uma coisa extremamente estranha atualmente, mas eu não vou dizer que não tenha sido em alguma época totalmente normal. Aliás, a gente tem também esse estigma, por exemplo, em cima de coreanos: "Eles comem carne de cachorro", como se... quando você pega a história daquele povo, não haveria motivo para eles não comerem. Orlando: É, porque quando a gente para e pensa nisso, a gente vê como, por exemplo, a própria definição de humano para a gente, da nossa perspectiva, passa por um critério alimentar. Então você vê, por exemplo, as discussões sobre veganismo, sobretudo aquelas mais moralistas, como elas vão rapidamente se converter em uma discussão sobre o direito das pessoas de consumir estes ou aqueles animais e como vão, muitas vezes, acusar aqueles que consomem animais de não serem pessoas moralmente superiores. Já que a gente está falando de alimentações, é bom lembrar um episódio recente, onde algumas, digamos, celebridades que militam em prol dos direitos dos animais, que, só deixando registrado, é uma luta pela qual eu também me engajo, mas que rapidamente converte-se em uma máquina racista, moral, na discussão sobre a imolação animal evocaram imagens de cachorrinhos, justamente para trazer todo esse sentimento de simpatia e convertê-lo rapidamente em uma antipatia para com essas religiões, como se essas religiões consumissem cachorros, consumissem cachorrinhos em seus rituais. [Trilha sonora] Nilda: Vamos falar hoje preferencialmente de comidas da umbanda e do candomblé, mas só para lembrar que desde antigamente você tem esses rituais, você tem rituais, principalmente na época de colheitas ou na época de caças fartas, ou na época em que a pesca é mais abundante, a gente tem vários rituais e várias festas que são ligadas a isso e são festas de agradecimento por que a gente conquistou essa comida. A gente, quando fala de mitologia, sempre fala dos gregos antigos, então os gregos tinham o costume de, toda vez que matavam um animal, uma parte do animal era queimada para o deus. No caso, as vísceras e a gordura. Já na nossa... que tem um pouco mais de influência... que é o judaísmo, você tem a questão da Páscoa, do Pessach, entre os judeus, e uma das coisas mais comuns lá é a questão do pão ázimo,