
Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo Mitocôndria, Pablo de Assis e Ju Ponzi conversam sobre o Krampus. Conheça esse assutador ser natalino. Ouça sobre os demais companheiros de São Nicolau. Entenda porque algumas tradições antigas devem ser alteradas. E receba um carvão, uma chicotada, ou seja sequestrado por esta adoravel criatura. - Esse episódio possui transcrição, veja mais abaixo. https://www.youtube.com/watch?v=JNu2oRf-Gjw https://www.youtube.com/watch?v=jNwpPwzdCNI https://www.youtube.com/watch?v=eus5DsNvf3g https://www.youtube.com/watch?v=pmfQqyXHAeI https://www.youtube.com/watch?v=mojrfw7SJ14 -- APOIE o Mitografias -- -- Transcrição realizada por Amanda Barreiro (@manda_barreiro) -- [00:00:00] [Vinheta de abertura]: Você está ouvindo Papo Lendário, o podcast de mitologias do projeto Mitografias. Quer conhecer sobre mitos, lendas, folclore e muito mais? Acesse: mitografias.com.br. [Trilha sonora] Leonardo: Muito bem, ouvintes. Se você está ouvindo este episódio assim que foi ao ar, Feliz Natal, e espero que tenha sido uma boa pessoa, caso contrário você irá ganhar um carvão ou então uma chicotada, ou mesmo ser sequestrado pelo Krampus. E para esse episódio estou aqui com o Pablo e com a Ju Ponzi, ela que conhece mais aí da terra natal dessa criatura. Ju Ponzi: Rapaz, lá, quando tinha a parada do Krampus, era louco. Leonardo: É, a gente vai falar também desses festivais, esses desfiles que tem aí. Eu já vi alguns vídeos aí e a gente vai tentar deixar alguns vídeos aí no post. Bom, quem é o Krampus? Ele é considerado um ser folclórico e é relacionado à época de Natal, por isso que esse episódio aqui está saindo na época de Natal aí, sendo o último episódio do ano. Ele, por vezes, é considerado uma versão macabra do Papai Noel, já que ele vem na época aí de Natal, mas ele é bem mais assustador. Não só a aparência dele, como o objetivo dele, que ele vem para punir e para sequestrar as crianças desobedientes, então, se você foi uma boa criança, o Papai Noel vem e te traz presentes; se você não foi, vem o Krampus te chicotear ou então te sequestrar, coloca você em um saco e leva embora. Pablo: A versão natalina do Homem do Saco. Leonardo: Exatamente. Ele é de origem da Europa, de alguns países específicos. Você o encontra em vários países, como a Áustria, a Hungria, a Eslováquia, a Eslovênia, Croácia, na Alemanha tem, em vários países dessa região. Claro que a gente tem uma versão brasileira, que mais para a frente aí a gente vai falar, e tem nos Estados Unidos também, mas adveio tudo dessas regiões da Europa. Pablo: Ju, você que além de ter morado por lá e conhece linguística, tem alguma relação entre esses diferentes povos que acabam trazendo uma base para o Krampus aparecer por ali ou é mais uma questão geográfica, tipo, um está do lado do outro? Ju Ponzi: Olha, eu acho que, na realidade, é uma mistura, tanto geográfico também, porque a gente tem uma linha, e essa linha desses países, querendo ou não, segue um rio, então você meio que pode vir trazendo todas essas histórias e essas lendas pelo rio, que foi uma coisa que é também bastante responsável por espalhar várias coisas pela Alemanha. Então, por exemplo, onde você... porque existe Carnaval na Alemanha - pasmem, temos Carnaval na Alemanha - e ele se estende por uma parte onde é tudo banhado pelo mesmo rio. Então era uma galera que fazia comércio e aí foi indo, foi espalhando. Então as cidades que são mais conhecidas por comemorar esta data de uma forma um pouquinho diferente da gente, mas também tem comemorações... eles comemoram mais ainda. Se você acha que o Carnaval aqui no Brasil dura muito, na Alemanha dura muito mais. E é tudo espalhado pelo rio, então você vai descendo o rio desde o norte até quase lá embaixo e tem um monte de cidadezinhas na beirada do rio. Então acredito que seja isso, seja muito pelo lance da galera ir e vir e trazer comércio, e trazer também as fábulas e as crendices, e o Krampus também, porque o Krampus é incontrolável, indomável. Leonardo: Ele que desce o rio e vai indo também assustar os outros países. Ju Ponzi: Exato. Pablo: É porque eu fico pensando muito no folclore alemão, porque os irmãos Grimm fizeram muito o favor de organizar tudo isso, eles caçaram muitos dos contos perdidos no interior da Alemanha e na região, mas muito enquanto na tentativa de organização linguística deles, e eu sempre tive curiosidade para saber se a cultura acabou se organizando também por conta disso, porque durante muito tempo a Alemanha não era um país, era um bando de gente que morava por perto basicamente, e depois eles foram se organizando, inclusive linguisticamente. Fiquei sabendo esses dias e acabei encontrando um vídeo que mostrava que, antes de Martinho Lutero, que fez uma tradução em alemão da Bíblia, você não tinha nem um alemão unificado, e que ele acabou criando uma versão que pudesse ser inteligível por vários dialetos e versões de alemão diferentes, e acabou dando uma base para isso. Ju Ponzi: É, e ele é o responsável por sistematizar a primeira gramática, inclusive, por isso. Sistematizar a primeira gramática do alemão. Então quando os meus alunos reclamam: "Ah, Juliana, isso aqui está muito difícil", eu falo: "Não é minha culpa, você vá brigar com Martinho Lutero, que foi culpa dele", coitado. Depois disso, o alemão evoluiu um montão, mas enfim, mas é isso mesmo. E outra coisa também que a gente tem nos contos que os irmãos Grimm recolheram, entre muitas aspas, do povo alemão, e justamente por esse lance de você não ter as suas bordas, os seus limites de país muito bem definidos, é o que acontece, por exemplo: na Alemanha, você tem um monte de versões de contos de fadas de contos nórdicos - porque a Europa é aquele negócio, tropeçou, caiu no outro país -, então você tem um monte de versões, por exemplo, de contos noruegueses, dinamarqueses, e que viraram histórias que hoje a gente conhece como legado dos irmãos Grimm. Então, por exemplo, a história da Bela Adormecida e tudo mais. Então acho que ficou uma grande mistureba, justamente por você não ter essa limitação física, e a galera no lugar ali até hoje, ali em cima onde você tem a divisão, a fronteira com a Dinamarca, você fala um dialeto que é uma mistura de alemão e dinamarquês. Então é tudo muito misturado. Então você tem toda a razão, a gente pode atribuir a isso também. E aí o Krampus viajou, aproveitou, porque, para uma história viver, ela precisa ser contada, então ele foi só se espalhando pela boca dos outros. Leonardo: Bom, falando desse tema, ouvinte, diz aí se você gostaria que a gente fizesse um episódio referente aos irmãos Grimm, toda essa parte histórica. De repente pode ser interessante. Diz aí nos comentários se você gostaria para o futuro um episódio desse tipo. Ju Ponzi: Adoro as histórias originais dos irmãos Grimm, que são muito mais sanguinolentas, maravilhosas, entendemos o porquê de elas terem mudado também, mas adoro. Leonardo: E aproveitando que a gente citou a questão da linguística e tudo mais, o Krampus, pelo que eu pesquisei, muitas vezes diz que ele vem de krampen, que seria a palavra para garra no alemão antigo. Ju Ponzi: Procede, é isso mesmo. Leonardo: Porque realmente ele tem garras, mas é claro que o nome dele também podia ser baseado em qualquer outra parte assustadora dele aí, porque a fisionomia dele é basicamente a de um demônio, o conceito classicão de um demônio. Ele tem o corpo todo peludo, tem chifres, ele tem um pé de bode. E eu acho interessante essa questão do pé, porque, nas representações, nos desenhos que você vê, normalmente um pé dele é mais comum, por assim dizer, e o outro é um de bode. Então, tipo, é um só. Pablo: Ele é meio sátiro só. Leonardo: É. Ju Ponzi: É verdade. Leonardo: E tem rabo, tem que ter, e outra coisa marcante da aparência dele é a língua, que normalmente é representado ele com um linguão grande para fora da boca. Mas ele tem ficado mais popular. Eu percebo que de uns anos, talvez décadas ou não, mas ele tem ficado mais popular, porque ele já é conhecido na Europa em si, nessas regiões, mas eu acho que em mídias mesmo em geral têm se tornado mais famoso. Não chega a ser tão comercial quanto o Papai Noel, mas ele tem se tornado mais conhecido. E ele veio mudando com o tempo, que a gente falou aí no início, de ele dar chicotada e sequestrar crianças; tipo, atualmente eu acho que deve ser mais tranquilo nos festivais que acontecem. Assusta um pouco, mas imagino que não deve ter muitos sequestros referentes a isso. Mas eu sei que antigamente as coisas acabavam sendo mais pesadas. Não que atualmente os festivais não assustem. Ju Ponzi: Leo, vou dizer que tem tentativas de sequestro. Vou deixar uns links aí para vocês de uns vídeos bem legais. Tem umas tentativas; eu acho que hoje eles não conseguem mais, mas, enfim, existe ainda uma tentativa de catar a criancinha lá que está com o pai e com a mãe vendo a parada do Krampus. Leonardo: E do Krampus, eu vejo, na pesquisa para a pauta, mostrando como que esse folclore foi se mantendo. Eu vejo que é bem aquela ideia que não dá para você barrar essas coisas culturais, porque é algo bem pesado, é assustador ali, e teve épocas que a Igreja Católica realmente proibiu, mas você vê que acaba voltando, continua tendo essa visão do Krampus assim. Não importa se a Igreja vai proibir ou não. E aí você vê que acaba já se unindo com a cultura em geral para realmente colocar no Natal algo realmente católico ali, claro que com sua origem pagã, mas atualmente católico, mas adiciona-se o Krampus. Porque até às vezes eu vejo o Krampus, eles põem como sendo a versão macabra do Papai Noel, como é visto assim, mas muitas vezes coloca-se até ele como um companheiro do Papai Noel, no sentido de que ele faz uma parte do trabalho. Enquanto o Papai Noel ganha ali a visibilidade boa, do bom velhinho, o Krampus faz o trabalho sujo. Pablo: Isso me chama a atenção,